Você sabia que o true crime deixou de ser um nicho e se tornou um dos gêneros mais populares do entretenimento digital, especialmente entre mulheres? Uma pesquisa do Pew Research Center mostrou que, entre os consumidores de podcasts nos Estados Unidos, 44% das mulheres afirmavam ouvir regularmente conteúdos de true crime, contra 23% dos homens. Para parte desse público, acompanhar assassinatos, desaparecimentos e golpes não é apenas entretenimento: é uma tentativa de compreender a violência, identificar sinais de perigo e recuperar algum senso de controle em uma rotina marcada pela insegurança.
Uma mulher caminha sozinha à noite e compartilha a localização com uma amiga. Evita aceitar carona de desconhecidos, pesquisa o nome de alguém antes de um encontro e reconhece como suspeito um comportamento que, até pouco tempo atrás, poderia parecer apenas “estranho”. Muitas dessas estratégias aparecem em relatos de consumidoras de podcasts, documentários e vídeos sobre crimes reais. O interesse pelo true crime costuma ser resumido à curiosidade ou ao fascínio pelo lado sombrio da humanidade. Mas, entre as mulheres, o consumo do gênero pode ter relação também com uma experiência cotidiana de vulnerabilidade. A pergunta não é apenas “por que elas gostam de histórias violentas?”, mas o que essas histórias oferecem a quem vive em permanente estado de alerta?
Para Giulia Carvalho, criadora de conteúdo sobre crimes reais, essa sensação de vulnerabilidade ajuda a explicar a busca por algum tipo de controle. “Essa busca por controle existe porque, de fato, a gente não tem nenhum. A gente não tem controle sobre nada, mas sendo mulher na sociedade, a gente não sabe se… ‘se eu pegar esse caminho… será que eu vou voltar pra casa?’”, afirma.
Um estudo publicado em 2021 no periódico Archives of Sexual Behavior investigou a relação entre medo de estupro e consumo de true crime. Melissa McDonald, Rachel James e Domenic Roberto identificaram que mulheres que relataram maior medo de estupro também consumiam mais conteúdos do gênero. Segundo o estudo, parte desse consumo era motivada pela intenção de aprender estratégias para prevenir ou escapar de uma agressão. A pesquisa, no entanto, não prova que assistir a crimes reais torne as mulheres mais seguras, nem que o medo seja sempre um guia confiável. O que ela mostra é uma associação entre medo, percepção de risco e busca por informação.
Uma investigação mais recente, publicada em 2026 no British Journal of Psychology, também encontrou maior consumo de true crime entre mulheres em uma amostra de 571 participantes. O estudo apontou que elas relataram com mais frequência uma motivação chamada pelos autores de vigilância defensiva: o desejo de reconhecer riscos e se preparar para situações ameaçadoras. A mesma pesquisa identificou outros motivos, como curiosidade mórbida, excitação e interesse pela autenticidade das histórias. Os resultados ajudam a explicar por que o gênero pode funcionar, para algumas consumidoras, como uma espécie de “manual informal” de prevenção. Ao acompanhar a cronologia de um crime, a relação entre vítima e agressor e os sinais ignorados antes da violência, a espectadora tenta transformar uma narrativa assustadora em conhecimento aplicável à própria vida.
Para Carla Antloga, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora de psicodinâmica do trabalho feminino, porém, é preciso cuidado para não interpretar esse interesse como uma característica exclusivamente feminina. “Violência é atraente para seres humanos. Eu não conheço pesquisas específicas que mostram que a violência é mais atrativa para mulheres – não pesquisas confiáveis”, afirma. Segundo a pesquisadora, a própria atração pelo que foge da normalidade pode ajudar a explicar o interesse por crimes reais. “A gente tem uma atração pelo que é fora do comum… Qualquer coisa que saia do trajeto normal tende a chamar muito mais a nossa atenção por princípio neuroquímico mesmo.” A ideia de que esse interesse necessariamente nasce de uma tentativa consciente de autoproteção, portanto, é apenas uma das possíveis interpretações. O conteúdo pode despertar atenção também por apresentar acontecimentos excepcionais, violentos ou imprevisíveis, que rompem com a experiência cotidiana.
Essa busca por controle aparece em um contexto concreto de violência contra mulheres. De acordo com a quinta edição da pesquisa Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 49,6% das mulheres brasileiras com 16 anos ou mais afirmaram ter sofrido algum tipo de assédio nos 12 meses anteriores à pesquisa. Isso corresponde a mais de 29 milhões de brasileiras. O levantamento também mostra que a violência mais grave sofrida pelas mulheres costuma ser praticada por alguém conhecido. Cônjuges, companheiros, namorados ou maridos foram apontados como autores por 40% das entrevistadas; ex-companheiros ou ex-namorados, por 26,8%. Somados, os parceiros e ex-parceiros aparecem em 66,8% dos casos. É também essa proximidade que pode explicar a identificação intensa com as vítimas. “A gente sabe que poderia ser a gente no lugar delas… a gente não está tão distante dessas mulheres, infelizmente”, afirma Giulia.
Esse dado contrasta com a estrutura de muitos conteúdos de true crime, que privilegiam assassinos em série, desconhecidos violentos e crimes excepcionais. Na vida real, porém, a ameaça frequentemente está no círculo íntimo, dentro de casa, em um relacionamento ou em uma relação de confiança. É nesse ponto que o gênero também pode produzir uma contradição. Ao mesmo tempo em que ajuda a reconhecer sinais de abuso, perseguição e manipulação, o true crime pode reforçar a ideia de que cabe às mulheres evitar a violência por meio de um comportamento perfeito: não sair sozinha, não confiar, não beber, não aceitar ajuda, não se relacionar com a pessoa “errada”. A prevenção, nesse caso, corre o risco de se transformar em hipervigilância: uma sensação constante de que qualquer decisão pode levar ao perigo. Em vez de deslocar a responsabilidade para o agressor e para as instituições, alguns conteúdos acabam sugerindo que a vítima deveria ter percebido antes, desconfiado mais ou agido de outra maneira. Essa identificação também ultrapassa o momento de consumo e aparece nas próprias comunidades formadas em torno do gênero. Nos comentários dos conteúdos de Giulia, por exemplo, relatos de experiências pessoais frequentemente surgem depois da publicação de um caso.
É justamente nessa diferença entre intenção e efeito que Carla faz uma ressalva. “Não existe evidência científica de que isso [consumir True Crime] prepara para situações de perigo. O que prepara para situação de perigo é treinamento adequado, defesa pessoal, outras coisas…” A pesquisadora destaca que acreditar estar se preparando não significa necessariamente adquirir ferramentas para lidar com uma situação real. “Se existe uma diferença, existe uma diferença na intenção, mas não quer dizer que o resultado vá ser estar preparada para lidar com a violência.”
Também existe o problema da estetização. Trilhas de suspense, thumbnails dramáticas, reconstituições e títulos sensacionalistas podem transformar o sofrimento de uma vítima em produto. Quando a narrativa se concentra na personalidade do criminoso, em seus hábitos e em sua “mente brilhante”, a mulher assassinada pode desaparecer da própria história.
No Brasil, um estudo de 2025 da Universidade Federal do Ceará analisou o consumo de true crime entre seguidoras da criadora Bel Rodrigues. A pesquisa qualitativa encontrou relatos de curiosidade, aprendizado, autopreservação, medo e empatia. Algumas participantes disseram ter mudado hábitos e adotado medidas preventivas depois de acompanhar histórias de crimes reais. Por se tratar de um trabalho com recorte específico e questionário direcionado a uma audiência particular, seus resultados não podem ser generalizados para todas as mulheres, mas ajudam a registrar como esse público interpreta o gênero. A questão, portanto, não é decidir se o true crime é “bom” ou “ruim” para as mulheres. O mais relevante é observar o que elas procuram nessas narrativas e o que recebem em troca. Algumas encontram informação, identificação e uma forma de elaborar o medo. Outras podem sair das histórias mais ansiosas, desconfiadas e convencidas de que a violência é inevitável.
A própria falta de evidências sobre uma preparação efetiva aponta para uma lacuna nas pesquisas. Para afirmar que o consumo de true crime torna alguém mais preparada para situações de violência, seria necessário comparar, por exemplo, o desempenho de consumidoras e não consumidoras diante de situações reais ou simuladas de perigo. Até que esse tipo de evidência exista, a ideia de que assistir a crimes funciona como uma forma de preparação deve ser tratada como uma percepção do público, e não como um efeito comprovado.
E essa dimensão coletiva aparece também nos comentários dos conteúdos. Para Giulia, a comunidade formada em torno dos casos pode funcionar como espaço de troca entre mulheres. “É muito um senso de comunidade que acaba se criando… infelizmente é a união pela dor, pelo medo.”
Dessa forma, entre o medo e o controle, o true crime oferece uma promessa difícil de cumprir: a de que conhecer todos os sinais será suficiente para evitar o próximo perigo. Mas nenhuma lista de “red flags” substitui políticas públicas, investigação policial, rede de proteção e responsabilização dos agressores.
