Digger e o prazer de assistir a um sujeito insuportável.

Tom Cruise torna difícil desviar o olhar de um bilionário que coloca o mundo em risco, numa sátira em que Iñárritu acerta no humor, mas às vezes explica mais do que precisa.
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Eduarda Guerra

Digger Rockwell é o tipo de personagem que faz a gente gostar um pouco menos de si mesmo. Basta ele aparecer para dar vontade de continuar assistindo, mesmo quando já ficou evidente que ninguém deveria estar dando tanta atenção àquele homem. Tom Cruise explora muito bem esse interesse meio constrangedor. Seu personagem tem dinheiro suficiente para causar problemas enormes e uma autoestima que o impede de se considerar parte deles. É uma combinação terrível para o planeta. No cinema, rende bastante.

O filme de Alejandro G. Iñárritu aproveita essa atração para nos colocar bem perto da confusão. Rockwell é um empresário do petróleo cujos negócios provocam uma emergência ambiental de alcance internacional. Quando os governos entram na história, a situação passa a depender de pessoas muito acostumadas a dar ordens e pouco preparadas para encontrar limites. A possibilidade de uma catástrofe parece menos difícil de aceitar do que a ideia de ceder algum controle.

Existe um prazer especial em acompanhar gente tão importante perdendo a compostura. Digger explora isso sem muita cerimônia. Seus personagens têm uma confiança que sobrevive até às próprias bobagens, e é dessa falta de vergonha que saem algumas das melhores oportunidades para a comédia. Eles podem estar completamente perdidos, mas continuam falando como se o resto do mundo é que precisasse se explicar.

Iñárritu entra nessa brincadeira com gosto. Seu hábito de carregar a mão encontra um assunto que comporta o peso: um homem para quem qualquer medida parece pequena. A encenação assume o exagero, dá espaço ao ridículo e deixa que aquela gente se leve muito mais a sério do que o público conseguiria. Há uma boa sintonia entre o tamanho da personalidade de Rockwell e o filme montado ao seu redor.

Essa escolha também tem um prazo de validade. Depois que entendemos como aqueles personagens funcionam, insistir na mesma tecla poderia transformar a sessão numa longa coleção de exemplos. O roteiro chega perto disso quando explica demais suas intenções. Dá para sentir os momentos em que o filme interrompe uma boa ideia para ter certeza de que ninguém deixou de percebê-la. A vontade é dizer: tudo bem, entendemos, pode continuar.

É justamente por isso que a construção da história faz diferença. Quando outra perspectiva entra em jogo, surge um interesse que a simples sucessão de absurdos dificilmente sustentaria sozinha. Sem entregar a surpresa, o filme passa a dar mais trabalho ao espectador, no bom sentido. Rockwell já não cabe tão facilmente na definição que parecia suficiente para ele, e algumas certezas sobre o que estamos acompanhando precisam ser revistas.

Cruise é fundamental para que essa mudança funcione. O papel oferece várias oportunidades para uma atuação espalhafatosa, mas seu trabalho tem mais recursos do

que isso. Ele consegue sustentar o personagem quando a história muda de registro, preservando o interesse mesmo depois que a novidade da caracterização passa. É aí que a atuação realmente impressiona: o filme continua encontrando coisas para fazer com ele.

Também ajuda ter um elenco de apoio capaz de disputar nossa atenção. John Goodman e Riz Ahmed dão à comédia uma variedade bem-vinda. Num filme tão concentrado em seu protagonista, seria fácil que todos os outros parecessem estar esperando a vez de Cruise voltar. Há vida ao redor de Rockwell, ainda que boa parte dela também esteja contribuindo para a bagunça.

Ao longo desse percurso, Iñárritu consegue se divertir mais com suas próprias obsessões. A necessidade de reconhecimento continua por ali, assim como o fascínio por pessoas convencidas de que merecem um lugar especial no mundo. Desta vez, porém, o humor impede que essa importância seja aceita sem alguma provocação. O diretor parece mais à vontade quando permite que a grandiosidade vire motivo de riso.

Digger poderia confiar um pouco mais nesse riso. Suas explicações mais insistentes são menos interessantes do que o desconforto de acompanhar Rockwell e perceber o quanto ele ainda consegue nos entreter. Ainda assim, o filme acerta bastante ao deixar essa contradição em aberto. A gente reconhece o absurdo, entende o perigo e continua querendo ver o que aquele sujeito fará em seguida. Cruise torna essa curiosidade fácil. Iñárritu tem o bom senso de torná-la um pouco incômoda.

Por isso, tratar o filme apenas como uma aposta de Cruise no Oscar seria perder boa parte da graça. O ator está excelente, especialmente quando precisa circular entre as duas camadas da história. Mas a discussão sobre ser ou não sua melhor atuação acaba roubando a atenção do que ele ajuda a construir. Se a principal conversa depois da sessão for sobre quem merece a próxima estatueta, Digger ainda vai ganhar uma piada extra: até diante do fim do mundo, a gente continua preocupado com quem vai receber os aplausos.

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