Minha Melhor Amiga: o mundo só pensa em gente nova?

“Minha Melhor Amiga” usa humor e afeto para discutir o envelhecimento feminino, o etarismo e a redescoberta da própria identidade quando uma mulher deixa de viver apenas para os outros.
Foto de Daniel Ribeiro

Daniel Ribeiro

Se você é uma mulher chegando aos 50, este filme provavelmente foi feito para você. Se você tem uma mãe, talvez também. Minha Melhor Amiga, protagonizado por Mônica Martelli e Ingrid Guimarães, parece falar com quem já viveu a experiência de cuidar de alguém por tanto tempo que, em algum momento, esqueceu de olhar para si mesma.

O filme começa dinâmico, rápido e engraçado, apostando em situações pequenas, mas extremamente reconhecíveis. A mãe que não consegue ler porque perdeu os óculos. A que esquece o nome do filho e chama pelo nome de outra pessoa. A que erra o Uber. A que vai à farmácia e parece estar fazendo uma compra para abastecer uma casa inteira. A que transforma uma possibilidade em um problema antes mesmo de ele existir.

Existe algo quase à la WandaVision nessa ansiedade. As personagens criam realidades próprias na cabeça, imaginam futuros que talvez nunca aconteçam e sofrem antecipadamente por coisas que ainda nem existem. É justamente aí que o filme encontra boa parte de seu humor: na capacidade que temos de reconhecer alguém nessas situações.

Mas, por trás das piadas, existe uma questão mais incômoda. O filme fala diretamente sobre o envelhecimento feminino e sobre uma sociedade que parece acreditar que novidade é sinônimo de juventude. Em determinado momento, surge uma ideia que resume boa parte da história: “O mundo só pensa em gente nova.” A personagem percebe que pode ser substituída por uma jornalista mais jovem, como se sua experiência tivesse perdido valor simplesmente porque ela envelheceu.

É uma crítica ao etarismo, mas também à maneira como as mulheres são ensinadas a acreditar que existe um prazo para serem interessantes, desejadas e profissionalmente relevantes.

Envelhecer não é apenas perceber que o corpo mudou ou que agora é preciso procurar os óculos antes de conseguir ler alguma coisa. É perceber que o mundo começa a olhar para você de outra maneira.

Mas o que mais me pegou no filme não foi só a questão do envelhecimento. Foi uma pergunta muito mais simples: quando foi a última vez que você viu sua mãe fazendo alguma coisa por ela?

Durante anos, elas vivem em função dos filhos. Cuidam, organizam, antecipam problemas, lembram compromissos, resolvem coisas. E talvez exista um pouco de egoísmo nosso em nunca parar para pensar que elas também precisam de tempo para si.

Precisam se divertir. Sair. Ter amigas. Se apaixonar. Errar. Descobrir novamente do que gostam.

Existe uma figura muito presente na vida de muitas pessoas: a amiga da mãe. Aquela mulher que aparece para rir com ela, sair com ela, conversar sobre coisas que não têm nada a ver com os filhos. É como se essa amizade lembrasse que, antes de ser nossa mãe, ela era simplesmente uma mulher.

Depois de 18, 20 anos vivendo por alguém, é possível chegar a um momento em que já nem se sabe exatamente o que se quer para si mesma. E é aí que Minha Melhor Amiga encontra seu verdadeiro tema: não apenas envelhecer, mas descobrir quem se é quando já não é preciso viver o tempo inteiro para os outros.

O amor aparece nesse mesmo lugar de incerteza. Clara, vivida por Ingrid Guimarães, está em um casamento que claramente já não funciona, mas tem medo de ficar sozinha. E existe algo particularmente triste nessa situação: ela está sozinha mesmo estando casada.

Já Júlia, vivida por Mônica Martelli, está separada e vive o medo contrário: tem medo de se apaixonar novamente. Medo de passar por tudo outra vez. Medo do desconhecido.

Uma tem medo de sair de uma relação. A outra tem medo de entrar em uma.

Por isso, a frase “O tempo é nosso e o amor depende do outro” ganha tanto peso. O tempo que temos é nosso. O que fazemos com ele também deveria ser. Já o amor, por mais bonito que seja, depende de outra pessoa. Não existe relação a dois vivida por uma pessoa só.

No meio disso tudo, existe ainda a homenagem a Paulo Gustavo. Ela aparece de maneira simbólica, engraçada e emocionante, funcionando como uma lembrança afetiva que atravessa a história sem precisar interrompê-la.

Visualmente, o filme também encontra uma maneira interessante de traduzir suas personagens. Quando elas chegam a Lisboa e depois passam pela Espanha, as paisagens são bonitas, abertas e quase turísticas demais. Mas, em meio a cenários mais claros e minimalistas, as duas protagonistas aparecem como pontos de cor.

Elas se destacam dos outros turistas e parecem carregar consigo uma energia que o próprio cenário não tem. Mesmo quando estão inseguras, tristes ou perdidas emocionalmente, continuam sendo personagens fortes, alegres e cheias de vida.

É como se o figurino dissesse aquilo que elas ainda estão tentando descobrir dentro de si mesmas.

A trilha sonora acompanha essa sensação e ajuda a construir um filme leve, divertido e afetivo. Em um dos momentos, quando Ingrid Guimarães foge do café, existe uma energia que lembra Carrie Bradshaw, de Sex and the City. Não como uma cópia, mas como uma referência estética que combina com essa mulher tentando entender o amor, a amizade, o envelhecimento e a própria identidade.

Minha Melhor Amiga é uma comédia, mas não é apenas uma comédia sobre duas mulheres aos 50. É sobre o que acontece quando uma mulher percebe que passou tanto tempo sendo mãe, esposa, profissional e amiga que talvez tenha esquecido de ser simplesmente ela mesma.

Talvez o maior mérito do filme esteja justamente aí: fazer rir de coisas que reconhecemos em nossas mães e, alguns minutos depois, fazer a gente perceber que talvez nunca tenha parado para perguntar quem elas são quando não estão sendo nossas mães.

Porque talvez seja essa a parte mais difícil de crescer: entender que nossas mães também têm uma vida que existe para além de nós.

E que, enquanto o mundo continua pensando em gente nova, talvez elas estejam apenas começando a descobrir quem são quando finalmente têm tempo para pensar em si mesmas.

 

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