Existe uma expectativa silenciosa em torno do corpo da mulher grávida: a de que ele deveria se tornar propriedade coletiva, sendo comentado, tocado, vestido segundo um roteiro pronto de cautela ou de celebração excessiva. Mas, raramente, é autorizado a simplesmente continuar sendo de quem o habita. A moda entra nesse cenário como personagem ambígua: pode ser o instrumento que devolve à gestante o controle sobre a própria imagem, ou pode ser mais uma camada de vigilância. Entre essas duas perspectivas, o vestuário gestacional deixa de ser questão estética e vira território de disputa sobre autonomia: quem decide como o corpo em transformação deve aparecer.
Em janeiro de 2026, o interesse de busca por moda gestante no Brasil atingiu o maior patamar já registrado, um indício de que a mulher grávida não está mais disposta a trocar estilo por conformidade, e sim buscando ativamente conciliar as duas coisas. O movimento acompanha um cenário de varejo de moda em expansão: a indústria do vestuário no país deve movimentar R$314,9 bilhões em 2025, alta de 6,8% sobre o ano anterior, segundo o IEMI. No recorte específico de moda gestante, o retrato global aponta na mesma direção: os relatórios de mercado mais recentes divergem bastante em metodologia e escala, mas convergem no diagnóstico: crescimento puxado por gestação mais tardia, mulheres em cargos profissionais que precisam de roupa de trabalho adequada, e o papel de influenciadoras digitais normalizando a ideia de que gravidez e moda não são projetos concorrentes.
É a partir disso que a fala de nossa entrevistada, Vitória Portes, ganha relevância de dados, além do relato pessoal. Ela está na transição para a 20ª semana de gestação e diz algo que soa simples, mas não é: a gravidez tem sido tranquila do ponto de vista físico (sem enjoos, sem azia) mas e, ainda assim, ela precisou reaprender a se vestir. Não porque o corpo tenha doído, mas porque ele mudou de forma mais rápida do que o armário conseguiu acompanhar. E é nesse descompasso que mora o que a moda brasileira ainda não percebeu.
Vitória é influenciadora de moda e maternidade, então sabe que está sendo observada enquanto se transforma. Mas o relato dela foge do lugar comum do “aceitar o corpo que muda”: ela fala em manter rotinas de autocuidado como ponto inegociável, não como mimo. A acne e a oleosidade capilar que apareceram no meio do processo geraram insegurança, e a resposta não foi ignorar isso em nome de um discurso de aceitação vazio. Foi seguir se cuidando como sempre se cuidou. Dessa maneira, isso é importante porque desmonta uma narrativa comum sobre a gestação: a de que a mulher grávida deveria abrir mão da própria identidade estética em nome do bebê. Portes inverte a lógica: cuidar de si é, segundo ela, uma condição para que os dois estejam bem, não um desvio de prioridade.

O achado mais interessante da conversa, do ponto de vista de moda, é objeto concreto: duas calças de couro modelo clochard, que já faziam parte do guarda-roupa de Vitória antes da gravidez, viraram o “uniforme” gestacional. Não por acaso: couro nobre, corte fluido, cintura que acomoda mudança sem precisar ser substituída a cada mês. A peça não foi comprada para a gestação; foi a gestação que revelou o motivo da peça ainda estar ali. Assim,o guarda-roupa gestante ideal não é necessariamente um guarda-roupa novo. Pode ser um exercício de releitura sobre o que já existe, escolhendo as peças que têm estrutura para acompanhar o corpo em movimento.
Em contrapartida, houve reorganização física do armário: tirar de vista o que não serve mais e usar brechós como recurso para peças de uso temporário, evitando investir alto em algo que dura poucos meses. E um dado que raramente aparece em pautas de moda gestante: o tempo gasto com lingerie e conforto íntimo diário, tratado por Vitória com o mesmo peso dado às roupas de cima.
Onde o mercado ainda falha
Vitória é direta sobre essa lacuna: o mercado brasileiro de moda gestante não oferece meio-termo. De um lado, marcas de luxo com alto valor agregado; do outro, opções populares com tecidos e modelagens que resultam em caimento ruim e desconforto. Fica um vazio exatamente onde mais gente precisa: qualidade acessível. É o tipo de gargalo que os números de mercado não captam bem: a demanda cresce, mas cresce em volume, não necessariamente em variedade de proposta de valor.
Esse desequilíbrio aparece também na oferta nacional dedicada ao segmento: diferente de mercados como Reino Unido e Estados Unidos, onde marcas específicas de maternidade (Seraphine, JoJo Maman Bébé, A Pea in the Pod) têm presença consolidada em faixas de preço variadas, o Brasil ainda concentra grande parte da oferta dedicada em poucos players de nicho, sem uma marca de médio porte que tenha se tornado sinônimo de moda gestante no varejo popular ou de médio padrão. Pesquisas globais de consumo (Global Growth Insights) mostram que mais de dois terços das gestantes preferem hoje peças desenhadas especificamente para o corpo gestacional em vez de adaptar roupas comuns, e mais da metade prioriza tecido elástico como critério de compra: sinal de que a demanda por especialização é real, mas no Brasil essa especialização ainda não chegou à faixa de preço intermediária em escala relevante. O espaço que sobra é, majoritariamente, ocupado por marcas internacionais via importação, redes de fast fashion com linhas limitadas e sazonais, ou pela solução que Vitória Portes descreveu: garimpo em brechó e reaproveitamento do guarda-roupa que já existe.
A mente demora mais que o corpo
Para entender por que esse descompasso é tão comum, vale a leitura de Beatriz Maria, psicoterapeuta pós-graduada em Terapia Cognitivo-Comportamental e em Neurociência e Desenvolvimento, com formação também em Terapia Comportamental Dialética e em obesidade e emagrecimento, e que atua com foco em saúde mental materna, acompanhando gestantes e puérperas.
Segundo ela, a sensação de desconexão com o próprio corpo durante a gestação é esperada e tem explicação. A imagem que vemos no espelho não é neutra: é filtrada por referências do ambiente ao redor, o que faz duas mulheres com corpos parecidos se enxergarem de formas completamente diferentes. Na gestação, o problema se agrava porque a mudança física é rápida demais para a mente acompanhar. Beatriz compara ao que relatam pacientes pós-bariátrica: o corpo muda de tamanho antes de a autoimagem se atualizar, e a pessoa segue, por um tempo, “vendo” um corpo que já não existe mais. Ganhar três, quatro quilos em um mês pode gerar esse mesmo hiato, e é uma questão de saúde mental, porque a auto satisfação está diretamente ligada aos níveis de bem-estar e felicidade percebidos.
Já a adaptação, não termina no parto. Beatriz chama atenção para uma mudança de critério que pouca gente nomeia: no pós-parto, a roupa passa a responder à rotina, não só ao corpo. Salto alto sai de cena porque é preciso carregar o bebê no colo; peças precisam viabilizar a amamentação; o guarda-roupa se reorganiza em torno de funcionalidade prática.
Ela também nomeia uma armadilha comum: a expectativa, alimentada pelas redes sociais, de que existe um número fixo de quilos “aceitável” para engordar na gestação, geralmente abaixo do que de fato acontece, e de que o corpo “volta” logo depois. Quando a realidade não corresponde a essa expectativa, o processo de as roupas voltarem a servir pode demorar bem mais do que o previsto, e a mulher segue tentando se reconhecer num estilo que talvez já não sirva mais, não porque o corpo esteja “errado”, mas porque a vida em volta dele mudou. Beatriz descreve isso como um convite à redescoberta: às vezes a solução não é recuperar o guarda-roupa anterior, e sim comprar peças no novo número que preservem a mesma identidade de estilo, adaptar a forma sem abrir mão de quem se é.
Sobre o mercado, a leitura de Beatriz confirma e amplia o diagnóstico de Vitória Portes: o segmento evoluiu, mas ainda tem caminho: existem marcas preocupadas em oferecer roupa gestante mais estilizada, mas o acesso a elas está longe de ser universal. Na ausência dessa oferta, o setor tende a resolver o problema só pela via do conforto, deixando de lado o estilo, o que, segundo ela, acaba reforçando um estereótipo: o de que a mulher grávida não precisa (ou não deveria) chamar atenção, bastando-lhe estar confortável.
Beatriz é direta ao recusar essa lógica: conforto e estilo não são objetivos concorrentes, e insistir nessa falsa escolha ignora que a gestante se beneficia justamente do papel emocional que a roupa exerce. Vestir-se bem não é vaidade neste contexto: é um dos mecanismos disponíveis para sustentar a relação da mulher consigo mesma enquanto o corpo, a rotina e a identidade estão todos em movimento ao mesmo tempo.
Em suma, entende-se que a moda gestante bem resolvida não é sobre esconder o corpo que muda nem sobre celebrá-lo performaticamente. É sobre continuidade: manter contato com quem você era, usando o que já sabe sobre si, enquanto o corpo ocupa um novo lugar. E, como aponta Beatriz Maria, essa continuidade não é só estética: é também a mente alcançando, aos poucos, o que os olhos já vêem.
