É difícil começar a falar de Antártida sem destacar seu trabalho técnico. A superprodução dos Estúdios Globo impressiona principalmente pela maquiagem, pela direção de arte e pelos efeitos visuais, capazes de transportar o espectador para o ambiente hostil do Polo Sul mesmo com o longa tendo sido inteiramente gravado no calor do Rio de Janeiro.
Esse cuidado ganha ainda mais força quando o gerador responsável por manter a estação de pesquisa aquecida deixa de funcionar. A partir dali, o frio deixa de ser apenas parte do cenário e passa a interferir diretamente na tensão do filme. Presos em meio a uma imensidão branca, sem uma saída imediata e com poucas perspectivas de voltar para casa em segurança, os personagens parecem cada vez mais isolados. O resultado é uma sensação crescente de claustrofobia, curiosamente construída em um espaço aberto e aparentemente infinito.
Quando o assunto é a narrativa, porém, Antártida começa de maneira promissora e perde força conforme acumula conflitos. A história acompanha cientistas e militares brasileiros responsáveis por uma missão de pesquisa no continente gelado. A chegada da jovem pesquisadora Inês, interpretada por Marina Ruy Barbosa, altera completamente a dinâmica da estação depois que ela se torna vítima de um crime. A partir daí, o filme assume contornos de investigação e transforma aquele grupo isolado em um pequeno universo de suspeitos.
Quem conduz essa busca é a subtenente Elisabeth, vivida por Andrea Beltrão. Diante do crime e das versões contraditórias que começam a surgir, uma suspeita passa a dominar tanto a personagem quanto o espectador. Qualquer um daqueles homens pode estar mentindo.
É nesse momento que o longa se aproxima mais claramente da estrutura clássica do mistério. Os suspeitos são interrogados, a noite do crime é revisitada sob diferentes perspectivas e detalhes inicialmente insignificantes começam a ganhar novos significados. Aos poucos, Elizabeth tenta reconstruir o que aconteceu enquanto percebe as inconsistências nos relatos de seus companheiros.
O problema é que o filme não permanece tempo suficiente nesse caminho.
O mistério envolvendo Inês precisa dividir espaço com os dilemas morais de Elisabeth e também com a relação conturbada entre Vicente, personagem de Lázaro Ramos, e Marina, interpretada por Leandra Leal. Há material dramático em todas essas frentes, mas pouco tempo para que alguma delas seja desenvolvida plenamente.
Ver Lázaro Ramos e Leandra Leal novamente em cena, 23 anos depois de O Homem que Copiava, possui um peso inevitável para quem conhece a trajetória dos dois atores. A relação entre seus personagens também carrega conflitos suficientes para sustentar uma trama própria. Justamente por isso, fica a sensação de que Vicente e Marina mereciam mais espaço. O mesmo acontece com Inês. Embora seja o acontecimento envolvendo sua personagem que movimenta toda a investigação, ela perde presença à medida que o filme avança, como se o roteiro se afastasse aos poucos da figura que deveria permanecer no centro daquele conflito.
Essa dispersão ajuda a explicar por que Antártida parece, em vários momentos, comprimido dentro dos seus 93 minutos. A história dá a impressão de ter personagens, conflitos e caminhos narrativos demais para o tempo disponível. Não surpreende, portanto, saber que o material original, desenvolvido por volta de 2017, havia sido pensado como uma série. A estrutura episódica provavelmente permitiria explorar melhor os suspeitos, as relações dentro da estação e, principalmente, as consequências do crime para Inês e para Elisabeth.
Se a narrativa nem sempre encontra o equilíbrio entre tudo o que deseja discutir, o elenco frequentemente compensa essas fragilidades. E seria difícil esperar pouco de um grupo formado por nomes como Andrea Beltrão, Leandra Leal e Lázaro Ramos.
Beltrão sustenta boa parte da tensão do longa ao interpretar uma personagem obrigada a investigar homens com quem divide não apenas o trabalho, mas também aquele espaço de confinamento. Leandra Leal, por sua vez, encontra força mesmo nos momentos em que o roteiro oferece menos material à sua personagem. Algumas das melhores cenas surgem justamente quando as duas dividem o quadro. Há situações em que o desconforto entre Elisabeth e Marina aparece antes mesmo do diálogo, construído pelo silêncio, pelas expressões e pela percepção de que ambas entendem a gravidade do ambiente em que estão inseridas.
É justamente na dimensão política da história que Antártida encontra sua principal limitação. O filme tenta discutir estruturas de poder, machismo dentro das Forças Armadas e violência sexual, mas nem sempre desenvolve esses temas com a profundidade que eles exigem. O abuso que dá início ao conflito narrativo acaba, em certos momentos, funcionando mais como mecanismo para movimentar o mistério do que como uma experiência cujas consequências permanecem verdadeiramente no centro da história.
Ainda assim, o longa encontra força naquilo que consegue construir sensorialmente. O isolamento, o frio e a impossibilidade de escapar transformam a estação em uma espécie de prisão cercada por quilômetros de neve. Tecnicamente, Antártida convence. Dramaticamente, funciona melhor quando confia no elenco e na tensão entre os personagens do que quando tenta explicar demais seus conflitos.
Há diálogos engessados, situações previsíveis e temas que pediam mais espaço. Mas existe também um desconforto constante que permanece até o fim. Talvez esteja justamente aí o maior acerto do filme. Mesmo quando sua narrativa se dispersa, Antártida consegue fazer daquele lugar remoto, silencioso e aparentemente vazio um ambiente onde ninguém parece realmente seguro.
