Influência Com Propósito: como Vic Ripper transformou conversa em comunidade

A trajetória de Vic Ripper revela como autenticidade, constância e conexão genuína são fundamentais para se destacar no mercado de influência digital no Brasil.
Foto de Lohany Sorgen

Lohany Sorgen

Em um dia ocioso navegando pelo Youtube, encontrei o podcast de uma carioca falando sobre relacionamentos. Com opiniões fortes e temas relevantes para qualquer idade, ela entretém quem quer que esteja olhando e dá um show de carisma à cada episódio. Em um tempo em que os vídeos curtos viraram regra, Vic Ripper faz a gente querer mais – até mesmo em episódios com quase uma hora de duração. E é justamente nesse poder que está a força da sua influência.

A trajetória de Vic na internet não foi linear, mas inspira qualquer um que ouça a sua história. Como uma jovem nascida nos anos 1990, o desejo de ser influencer nunca foi algo presente na rotina e sempre quis seguir os passos da família no Direito. Fez a faculdade e se formou, mas, no dia a dia da profissão, a frustração apareceu. “Depois de sair da advocacia e pensar no que fazer, decidi cursar Jornalismo porque sempre fui comunicadora. No meio do curso, veio a pandemia. Comecei a filmar minha família assistindo novela e a dar dicas de maquiagem para amigas no Instagram. O perfil cresceu organicamente, as marcas começaram a me procurar e eu me vi diante de uma escolha: seguir em estágios em grandes veículos, que proibiam publicidade, ou investir na carreira de influenciadora. Acabei entrando de vez na influência digital entre 2020 e 2021”, contou.

Assim como Vic, muitos dos influenciadores que conhecemos hoje surgiram durante a pandemia da COVID-19. O uso das redes sociais disparou, o Tiktok bombou e, consequentemente, as marcas entenderam o poder desses criadores como ponte direta ao público. Com isso, a influência digital começou a ser reconhecida como profissão. Dados da Influency.me apontam que, entre março de 2024 e março de 2025, o volume de criadores de conteúdo no Brasil cresceu 67%, saltando de 1.2 milhão para 2 milhões, sendo o país que ocupa o topo do ranking mundial. 

 

Reprodução: Arquivo Pessoal

Justamente por essa profissionalização, o simples ato de postar um vídeo não determina quem é ou não influenciador. Hoje, ter um conteúdo que gere sentido e criar uma comunidade que se identifique com determinado  assunto, tem muito mais valor – e a chamada “Escola Vic Ripper”, termo utilizado pelos seguidores para os ensinamentos amorosos de Vic, é um grande exemplo. Os conteúdos sobre relacionamento surgiram de forma natural, quando a influenciadora terminou um namoro: “Não foi planejado. Eu falava de moda e beleza, mas, em 2022, terminei um relacionamento e estava frágil. Abri uma caixinha de perguntas e alguém perguntou sobre relacionamento. Dei um conselho real, como se fosse para uma amiga, sem ser genérica. Isso gerou um retorno enorme e percebi que as pessoas têm uma carência muito grande de falar sobre esse tema.”, contou. 

Conversar como se fosse uma amiga, sem barreiras influencer e seguidoras, foi, sem dúvidas, um fator essencial para a criação dessa comunidade. Segundo Vic, as pessoas contam e esperam seus conselhos de forma genuína e ter constância e estar à disposição faz toda a diferença. “Eu sempre priorizei fidelizar os seguidores antigos mais do que ganhar novos. Respondo directs e caixinhas de perguntas toda segunda-feira.”, destaca.

“Eu sempre priorizei fidelizar os seguidores antigos mais do que ganhar novos.” 

Partindo desse ponto, a influenciadora resolveu explorar a omnicanalidade do seu conteúdo e levá-lo para o áudio e vídeo. Afinal, além de ser uma maneira de desdobrar sua famosa caixinha de perguntas do Instagram, fidelizou e conectou ainda mais seu público, além de alcançar uma nova base. “Eu me via como repórter de TV, mas tive um professor de rádio que insistia que eu deveria trabalhar com áudio. No início, eu resisti, mas quando os temas de relacionamento explodiram nas minhas redes, vi que era o formato ideal. Eu queria um podcast temático e não apenas entrevistas genéricas. O projeto nasceu rápido e eu faço questão de participar de todas as etapas”, contou ela, mostrando inclusive que desenhou a ideia de logo e vinheta à mão, para passar para o time criativo. 

Além da decisão criativa, o movimento acompanha uma transformação estrutural do consumo de conteúdo. Segundo o Digital 2024: Brazil, da DataReportal, em parceria com a We Are Social, o Brasil passa, em média, mais de 9 horas por dia conectado à internet, sendo que os vídeos online estão entre os formatos mais consumidos. No universo do áudio, o país é um dos maiores mercados de podcast do mundo. Dados da Spotify de 2022 indicam que o Brasil figura consistentemente entre os três países que mais consomem podcasts globalmente. Já a pesquisa Inside Audio 2023, da Kantar IBOPE Media, mostra que mais de 40% dos internautas brasileiros escutam podcast, consolidando o formato como parte da rotina informativa e de entretenimento.

Para Vic, a receptividade do público em diferentes plataformas acontece de forma natural e o Youtube, principal canal do “Pod Isso, Vic?” (disponível em sua terceira temporada, toda terça-feira, às 7h), nada mais é do que uma consequência de outras redes. Nas outras redes, ela encontra um desafio: os cortes fora de contexto. “No TikTok e Instagram, os cortes viralizam para pessoas que não conhecem meu tom de voz ou minhas brincadeiras, o que às vezes gera tentativas de cancelamento por falta de contexto.”, comenta ela. 

Dessa maneira, mesmo em um país onde, hoje, ser criador de conteúdo virou um desejo real de profissão e somos atingidos por turbilhões de vídeos e pessoas, diariamente, ao rodar o feed, se destacar com autoridade e credibilidade é um desafio. Não basta apenas produzir com frequência ou acompanhar trends: é preciso construir repertório, ter consistência narrativa e, principalmente, sustentar um posicionamento claro ao longo do tempo. Em meio ao excesso de estímulos e à lógica imediatista das redes, a autoridade precisa ser construída, dia a dia. Para Vic, o mercado de influência no Brasil é apenas mais um mercado cheio, como qualquer outro, inclusive de profissões mais “tradicionais”. “A influência digital é a profissão do futuro. Não é porque o mercado está saturado que alguém não se dá bem nele. A pessoa pode não prosperar por vários motivos, como falta de aptidão e de oportunidade – como acontece em qualquer carreira. Existe bastante preconceito e falta regulamentação. Mas com esforço, pesquisa e estratégia, há boas chances de se destacar”, complementa.

E para quem sonha com a carreira, o recado é claro: para Vic, a constância é a chave. Postar todos os dias, mesmo que não tenha nada planejado, abrir a câmera e conversar. “A troca é fundamental. Não adianta ser uma “autoridade” inacessível; você precisa ouvir seus seguidores, pedir opiniões e fazer com que eles se sintam parte do processo.” 

No fim das contas, mais do que números ou métricas, o que sustenta uma trajetória no digital é a capacidade de criar conexão genuína com quem está do outro lado da tela. Em um cenário movido por algoritmos e tendências, permanece quem entende que influência é sobre pessoas, relacionamentos e verdade. 

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