O DRESS CODE DA MÚSICA: como as tendências de moda são adaptadas para os festivais

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Lohany Sorgen

Lollapalooza, Rock in Rio, The Town, Primavera Sound e até mesmo Planeta Atlântida: os festivais de música estão frequentemente associados à cultura e à identidade de diferentes públicos e, consequentemente, a moda se insere nesse contexto. Como discutem autores da sociologia da música e da cultura, como Andy Bennett e Keith Kahn-Harris, esses eventos funcionam como espaços de construção de identidade e expressão individual. Desde Woodstock, festival que marcou o auge do movimento hippie em 1969, observa-se a vontade do público de traduzir essa expressão também por meio das roupas, característica recorrente nesses ambientes. Mesmo nos anos 1960, os vestidos de crochê, as barrigas de fora e a fluidez de gêneros definiram uma estética que atravessou gerações. 

Mais do que uma tendência pontual, essa estética estava diretamente ligada aos ideais de liberdade e contestação que permeavam o contexto da Contracultura dos anos 1960. Em Woodstock, o vestir ultrapassava o campo visual e se tornava uma forma de posicionamento: a rejeição a padrões tradicionais, a valorização do artesanal e a fluidez nas expressões de gênero refletiam um desejo coletivo de ruptura. Ao transformar o corpo em meio de comunicação, o público estabeleceu uma relação entre moda e identidade que não apenas definiu aquele momento histórico, mas também abriu caminho para que, nas décadas seguintes, os festivais se consolidassem como espaços de experimentação estética e afirmação individual.

Reprodução: Pinterest.

Outro grande marco aconteceu nos anos 2010, quando um festival no meio do deserto se tornou símbolo da cultura pop. O Coachella, em sua golden era, definiu a maneira como uma geração inteira desejou se vestir e consolidou o boho como uma das principais tendências da década. Franjas, coroas de flores, botas western, renda e sobreposições leves passaram a dominar não apenas o gramado do festival, mas também o street style e as redes sociais, transformando o evento em uma vitrine global de comportamento e estilo. Muito além da música, o Coachella se tornou um palco estratégico para marcas, influenciadores e celebridades, comportamento que vemos refletido ainda hoje nesse e em outros eventos ao redor do mundo. 

Reprodução: Getty Images

Dessa forma, o processo de escolha do que vestir em um festival se tornou um verdadeiro desafio para os amantes de moda: a adaptação de tendências, do estilo pessoal e dos artistas que estarão nos palcos são pontos que contam na hora de definir a composição. Luiza Tardin, influenciadora e entusiasta da cultura pop, acredita que festivais e shows se tornam um espaço seguro para quem não sabe como arriscar um pouco mais em looks do dia-a-dia. “Eu enxergo como uma oportunidade das pessoas ousarem um pouco mais nos looks, pegando referências de outras épocas, se inspirando em artistas que gostam, tornando o festival um evento sobre também se apresentar como parte daquilo, sabe?”, comenta ela.

Reprodução: Instagram @luizatardin

Pessoalmente, no momento de se vestir para essas ocasiões, Luiza se inspira no próprio artista ou temática do álbum: “Como eu sou uma pessoa que ama se expressar através da moda, tenho esses eventos como chance para ousar ainda mais (pois normalmente já amo fazer isso, mas sinto que nos shows posso ir ainda mais longe!). Também adoro ter um tema para me guiar. Por isso, me inspiro em trabalhos e artistas que gosto:, completa.

Com o Lollapalooza Brasil 2026 neste final de semana, ficou evidente como a moda segue ocupando um papel central na construção das narrativas artísticas, e também do público. Nomes como Tyler, The Creator, Sabrina Carpenter e Chappell Roan, que passaram pelo Autódromo de Interlagos, não apenas entregaram performances marcantes, mas também influenciaram diretamente as escolhas estéticas vistas ao longo dos dias de festival, do preppy ao pop ultrafeminino e teatral. Mais do que reproduzir referências, o que se observou foi um esforço coletivo de tradução dessas influências para identidades próprias, considerando clima, conforto e contexto. No fim, é no público que cada tendência se desdobra em novas versões, leituras e possibilidades.

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