Como uma nascida na Geração Z que trabalha com marketing, passo mais horas do dia olhando para telas do que gostaria e do que gostaria de admitir. Sinto que minha vida se resume a aquele meme do Juliano Floss, de quem trabalha com redes sociais, no intervalo usa redes sociais, e sai do trabalho para usar redes sociais.

Para mim, o meu celular já virou quase uma extensão do corpo. E, ainda que eu admita esse vício, em meio a minha vontade de estar online, confesso que sinto um incômodo: o de não conseguir desvincular.
A minha geração vive um certo paradoxo: somos hiperconectados, mas cada vez mais interessados em encontrar formas de desconectar.
Para entender melhor esse incômodo, que parece não ser só meu, mas de toda uma geração, conversei com a psicóloga Tayná Buzzacaro. Segundo ela, hoje vivemos em um ambiente que estimula atenção constante e gratificações imediatas, e isso mantém o cérebro em um ciclo contínuo de busca por estímulo: “Muitas vezes o excesso de conexão funciona como uma fuga do desconforto, da ansiedade, da frustração, do tédio… Ou seja, não é só hábito ou falta de disciplina, é sintoma de outros funcionamentos que não estão saudáveis.”
Uma pesquisa de 2025 da Consumer Pulse mostrou que os brasileiros passam, em média, mais de 9 horas por dia navegando na internet e que, desse tempo, mais de 3 horas são dedicadas exclusivamente às redes sociais.
E, então, o que estamos deixando de viver enquanto rolamos a tela por tanto tempo?
A busca por esse equilíbrio não é isolada. Ela acompanha movimentos como o “slow living”, que propõe um estilo de vida mais consciente e com menos pressa.

Em outro momento da minha conversa com Tayná, ela trouxe sobre esse ritmo acelerado de cobranças internas e externas, e como ele aciona nosso sistema de ‘luta ou fuga’: “Isso produz cortisol para nos manter atentos e prontos para reagir. O problema é que não fomos feitos para estar o tempo inteiro com esse sistema ligado. Em excesso, a produção de cortisol gera estresse e prejudica a saúde mental”, ela explica.
“A cultura do imediatismo também reduz a tolerância à frustração e pode fazer com que o indivíduo perceba a necessidade de pausa como falha e tenha dificuldade em se permitir descansar, o que é extremamente adoecedor”.
Nos últimos anos, notamos que, deste desconforto de viver em um ritmo acelerado demais, surgiu uma curiosidade quase instintiva por tudo aquilo que exige o oposto da pressa (já que ela está presente em quase tudo no nosso dia a dia). Atividades manuais, que antes eram vistas como ultrapassadas, começaram a ganhar um novo significado. Pintar taças, bordar, fazer cerâmica, montar quebra-cabeças, um workshop de flores ou até mesmo cozinhar deixaram de ser apenas hobbies, e passaram a funcionar, para muitas pessoas, como como pequenas pausas dentro de uma rotina acelerada.

Na minha visão, não se trata exatamente de rejeitar a tecnologia, mas de criar respiros dentro dela. Vivemos em um cenário onde a produtividade é medida por quem é mais ágil. As notificações do meu celular, por exemplo, não param nem por cinco minutos. Vivemos na cultura do imediatismo, em quase todas as áreas. E, neste cenário, escolher fazer algo com as próprias mãos, sem pressa, sem urgência e sem performance, parece quase um ato de resistência.
Mas o desafio está em começar, porque os benefícios já são comprovados: trabalhos manuais melhoram a nossa saúde mental tanto quanto ter um emprego. Isso é o que dizem estudos científicos, como um publicado em 2024 na revista britânica ‘Frontiers in Public Health’.
Esse ponto aparece também na fala de Tayná, que explica que atividades manuais são uma maneira de reduzir estímulos externos e pensar no presente. Ao nos concentrarmos em terminar uma tarefa, causamos, por consequência, um descanso mental: “É como uma prática de meditação, de certa forma”, ela afirma.
O mercado
Recentemente, vi uma influenciadora que acompanho pintando cerâmicas, e fui influenciada. A experiência era em São Paulo, então comecei a buscar alternativas em Porto Alegre. Foi assim que encontrei os workshops da Odd Arts, idealizada por Leticia Sauer, uma artista que decidiu empreender na indústria criativa.
Leticia sempre gostou de artes. Antes da ODD Arts, a sua primeira formação foi em moda. Segundo ela, resolveu abrir a empresa após pensar no “tipo de lugar que ela gostaria que existisse no mundo”.

Na nossa conversa, ela relatou que percebeu um aumento na procura por hobbies e experiências manuais e offline, tanto no próprio estúdio quanto na abertura de outros espaços. Segundo ela, a cerâmica se destaca nesse contexto, por ser um processo que não pode ser acelerado e exige paciência: a peça precisa passar por etapas demoradas, como a secagem e mais de uma queima no forno.
A empreendedora trouxe que a maioria das alunas utiliza a cerâmica como uma válvula de escape, e não para formação profissional como ceramistas: “Tenho diversas alunas que vieram por indicação de psicólogo ou psiquiatra, para largar o telefone”, ela afirma.
A psicóloga Tayná reforça sobre os impactos psicológicos do uso excessivo de telas no nosso dia a dia, e o quanto isso pode gerar um nível de estresse importante no funcionamento emocional e cognitivo do indivíduo: “Em casos mais graves, pode causar prejuízo social e depressão.”
O trabalho da ODD Arts, em Porto Alegre, na visão de Letícia, se conecta com o movimento de pessoas que buscam uma vida mais simples, desaceleração e o retorno às origens, incluindo o plantio e a arte manual.
E esse comportamento não aparece apenas na cerâmica. Em outras frentes da indústria criativa, a busca por atividades manuais como forma de desaceleração também tem se intensificado. É o que destaca Pâmela, fundadora da Meigo Mimo, de São Paulo. A própria empreendedora começou a fazer velas como um método para desestressar e “fugir” da pressão do mundo corporativo. O negócio começou quando, após ser desligada da empresa, ela decidiu se dedicar à venda de velas e, posteriormente, workshops, que se tornaram a principal busca devido à grande procura por “essa fuga da rotina corrida”.

Ela traz sobre como, o tempo todo, durante as oficinas, ela precisa “acalmar” as alunas:
“Eu falo: “‘Tá’ tudo bem você errar. Você não precisa ter pressa. Você vai conseguir”. Eu tenho que ir reforçando isso, porque acho que a pessoa está tão na rotina de entregar tudo tão perfeito, se comparar com uma máquina, sabe?”
Na minha conversa com a psicóloga Tayná, ela reforça sobre como muitas pessoas aprenderam, ao longo da vida, que só são válidas, merecedoras ou “suficientes” quando estão produzindo, resolvendo ou rendendo: “Em uma cultura que valoriza performance acima de bem-estar, descansar pode ser interpretado, de forma distorcida, como desperdício de tempo ou falta de compromisso”.
Pâmela aponta um crescimento significativo na demanda pelas experiências. Hoje, na Meigo Mimo, os workshops representam cerca de 80% do faturamento. E segundo ela, inclusive, esse interesse não vem apenas do público individual. Empresas também contratam oficinas como forma de promover momentos de pausa e desaceleração entre seus colaboradores.
Mas, no fim das contas, por que é tão difícil desacelerar?
Mudanças de hábito como esta devem ser acompanhadas de clareza dos objetivos que se quer obter, segundo Tayná: “Não é fácil substituir uma gratificação imediata da tela por algo externo que provavelmente gerará prazer apenas a médio e longo prazo.
“Oriento meus pacientes a começar aos poucos e ir gradativamente aumentando o tempo sem tela. Por exemplo, os primeiros 30 minutos da manhã, uma refeição sem celular ou a última hora antes de dormir. Não é uma ruptura brusca, mas um processo gradual de ensinar o corpo e a mente a saírem do estado de alerta contínuo.”
Sem dúvida, os hobbies manuais podem ajudar como uma forma de reconexão e desaceleração, mas a psicóloga alerta: “É necessário se atentar para não fazer deles outra cobrança de performance e desempenho. O hobby deve ser encarado como algo leve, que não possui certo ou errado.”
A chamada “vida simples”, nesse contexto, não é sobre abrir mão de algo, mas sobre saber equilibrar. É olhar para o tempo de outra forma, resgatar o prazer do processo e, principalmente, reaprender a estar presente em atividades que não precisam ser compartilhadas para existir. Reaprender a estar presente de verdade.
