Jogos de interesse, falta de conexão e olhos vidrados na tela, rolando sem parar pelas redes sociais: é assim que boa parte dos solteiros das gerações atuais passa seus dias, noites e até finais de semana, esperando pelo match perfeito. As idealizações? Nas alturas. Todos querem encontrar alguém que se encaixe em seus requisitos, mas muitos não têm coragem sequer de insistir em algo por medo da rejeição e da quebra de expectativa. De todos esses questionamentos, muitos, inclusive, vividos por mim mesma, que escrevo esta matéria, surgiu a dúvida: como a forma como as gerações Z e Alpha estão se relacionando muda a maneira como vemos e vivemos o amor?
As gerações Z (1997 – 2012) e Alpha (2010) já nasceram conectadas. Para elas, é muito natural o movimento do dedo ao se movimentar pela tela do celular, desde muito novas. As redes sociais, desde a pré-adolescência (e às vezes até antes) estão presentes no dia a dia e, assim como muitas das relações de amizade, as amorosas também começam a nascer no digital. Entretanto, segundo o New York Post, a gen Z é uma das gerações que mais relata sentimentos de solidão e dificuldade de conexão social, apesar da hiperconectividade. Ou seja, ao mesmo tempo que nunca foi tão fácil conhecer pessoas, nunca foi tão difícil criar uma conexão verdadeira. Thomas Schultz-Wenk, psicólogo clínico e influenciador digital que trata de relacionamentos, observa que a geração Z tem formado menos relacionamentos do que gerações anteriores, atribuindo esse cenário à dependência de telas e à falta de habilidades sociais para interações presenciais.
Em uma pesquisa realizada pela nossa equipe com jovens de 13 a 29 anos, percebe-se também o impacto das redes sociais na forma com as quais essas gerações se relacionam. 66,7% dos entrevistados relatam preferir conversar com alguém que está conhecendo por meio de mensagens de texto ou direct, enquanto 26,7% já terminaram algum relacionamento por conta das redes sociais.

Quando questionados sobre aplicativos de relacionamento, 37,9% os utilizam raramente, contra apenas uma pessoa que, diariamente, acessa algum deles. Em contrapartida, uma pesquisa realizada pelo Pew Research Center, constata que metade dos adultos de 18 a 29 anos nos EUA já usou aplicativo/site de relacionamento (48%), mostrando o peso dessas plataformas especialmente entre jovens. O mesmo levantamento mostrou que muitos usuários veem benefícios nos apps por ampliarem o “pool” de pessoas disponíveis, mas críticas recorrentes envolvem superficialidade, desonestidade e dificuldade de criar vínculos genuínos.
Para Thomas, o impacto das redes sociais e dos aplicativos nessas gerações vai muito além do simples interesse em conhecer alguém. Segundo ele, os apps de namoro aceleram a busca pela intimidade e suavizam a percepção da rejeição, o que pode dificultar o desenvolvimento da resiliência emocional no mundo offline. Afinal, para gerações anteriores, o mais comum era se interessar por alguém presencialmente e, diante de uma não correspondência, seguir em frente, aprendendo, aos poucos, a lidar com a rejeição e entendendo que ela não necessariamente define valor pessoal ou limita novas possibilidades. Nesse cenário, o medo de se sentir vulnerável também acaba funcionando como uma barreira para a construção de conexões mais profundas.
Ele ainda explica que, diante do chamado “paradoxo da escolha” – a ideia de que, quanto mais opções temos, mais difícil se torna decidir e maior é a chance de nos sentirmos insatisfeitos com a decisão tomada -, somado à abundância de possibilidades oferecidas pelas redes e aplicativos, muitas pessoas acabam investindo menos nas conexões. Em vez disso, passam a agir como “caçadores de emoção”, pulando de uma interação para outra, em busca de novidade constante, o que contribui para relações cada vez mais superficiais. Na prática, a sensação parece familiar para muitos jovens: conversas que começam intensas e terminam em silêncio, expectativas altas e uma constante impressão de que alguém “melhor” pode estar a apenas uma tela de distância.
Assim, em um mundo onde tudo parece substituível, insistir em alguém pode soar quase como um ato de resistência emocional. E mesmo que as gerações atuais lidem com generalizações de que “não querem nada sério”, não é bem assim que funciona. Em nossa pesquisa, são poucos os que preferem liberdade e encontros casuais e 66,7% acreditam que ainda irão se casar. Ainda para Thomas, os casos nos quais se percebe uma falta de interesse em “compromissos sérios”, decorrem-se de uma maior liberdade de escolha e da redução da pressão social que existia anteriormente. Adicionalmente, ele identifica o alto custo financeiro para manter um casamento e criar uma família como um fator determinante que afasta as novas gerações dessa estrutura tradicional.

Seguindo essa perspectiva, a geração Alpha talvez seja a primeira a viver o amor sem conhecer um mundo fora do algoritmo. Nascidos em uma era de TikTok, inteligência artificial e hiperconectividade, esses jovens crescem observando relações acontecerem, e terminarem, diante das telas, moldando desde cedo suas expectativas sobre afeto, intimidade e conexão. Para Thomas, essa geração enfrentará uma deficiência ainda mais acentuada em habilidades sociais offline devido ao fato de serem 100% nativos digitais. Para ele, embora seja uma evolução natural, o ambiente online os protege da realidade, dificultando o aprendizado de como lidar com frustrações, decepções e o estabelecimento de vínculos físicos.
Nesse contexto, o desafio vai além da forma de conhecer alguém e atinge, principalmente, a maneira como se sustenta uma relação. Acostumados à instantaneidade, ao consumo rápido de conteúdo e à lógica de substituição constante presente no ambiente digital, jovens Alpha podem desenvolver expectativas mais imediatistas sobre afeto e convivência. Afinal, construir intimidade exige tempo, desconforto e disposição para lidar com conflitos.
Por fim, Thomas defende que, apesar dos desafios, as novas gerações trazem aspectos positivos quando falamos de relacionamentos, como a busca pela autossuficiência e a quebra de paradigmas tradicionais sobre relacionamentos. A disposição dessas gerações em questionar normas sobre casamento e exclusividade de gênero representa um avanço importante em direção a modelos relacionais mais variados. Talvez, então, a questão não seja se as gerações Z e Alpha desaprenderam a amar, mas sim entender de que forma estão reaprendendo a fazê-lo. Em um cenário marcado por excesso de opções, conexões instantâneas e novos códigos de intimidade, amar parece exigir um equilíbrio delicado entre autonomia e vulnerabilidade, liberdade e compromisso.
Se o amor continua mudando ao longo das gerações, talvez o maior desafio das novas seja justamente este: descobrir como construir conexões profundas em um mundo que, o tempo todo, incentiva a seguir para a próxima opção.
