Acordo, olho o celular, me arrumo, saio de casa e respondo WhatsApps no trânsito. Chego ao trabalho, passo o dia em frente às telas. Volto pra casa, janto assistindo televisão, deito para relaxar (no celular) e durmo. Repito tudo isso durante a semana. Se você se identifica com essa rotina, talvez já tenha se perguntado em algum momento o que me incentivou a escrever essa matéria: em que espaço da agenda entram os encontros reais, fora das telas? Entre notificações, reuniões e algoritmos que tomam conta até do nosso tempo livre, conhecer alguém e, principalmente, criar uma conexão real virou quase um evento. O amor, que antes atravessava trajetos cotidianos, círculos sociais e coincidências, agora disputa atenção com telas que prometem aproximação constante, mas nem sempre entregam presença.
Paradoxalmente, nunca estivemos tão conectados, e nunca pareceu tão comum ouvir relatos de solidão: fato que já comentei em uma das minhas últimas matérias, conversando com um psicólogo especializado em relacionamentos. Assim, conversamos o dia inteiro, mas encontramos pouco. Damos match, mas nem sempre criamos vínculo. E é nesse cenário que a pergunta do parágrafo anterior começa a surgir com ainda mais frequência.
“A desconexão social tornou-se um fator-chave da crise mais ampla de saúde mental que vemos no mundo.” — Dr. Vivek Murthy, Cirurgião-Geral dos EUA e co-presidente da Comissão da OMS
Solidão em alta, conexão em baixa
O cenário não é apenas uma percepção individual, mas um dado de saúde pública reconhecido globalmente. Segundo a Organização Mundial da Saúde (2023), 1 em cada 6 pessoas no mundo é afetada pela solidão, que está associada a cerca de 100 mortes por hora no planeta, número que levou a própria OMS a criar a Comissão Internacional para Conexão Social, equiparando a solidão a crises como tabagismo e obesidade.
Dessa maneira, os aplicativos de relacionamento prometiam resolver justamente esse problema: aproximar pessoas num mundo cada vez mais acelerado. E, de fato, eles têm presença real na forma como brasileiros se conhecem. Uma pesquisa da Mobile Time (março de 2025, com 2.019 entrevistados) mostra que 23% dos brasileiros já tiveram algum encontro presencial marcado por app, entre os jovens, esse número sobe para 29%. O Tinder lidera com folga: 43% dos que usaram apps citam a plataforma como principal, seguido por Badoo (5%), Bumble (3%) e Grindr (3%). Instagram (4%), Facebook (4%) e WhatsApp (3%) também foram citados como mediadores de encontros.
Mas o uso constante tem um preço. Uma pesquisa da Forbes Health (2025) revela um cansaço crescente entre os usuários: 78% já se sentiram emocionalmente esgotados com plataformas de relacionamento, e os principais fatores apontados são a dificuldade de estabelecer conexão real (40%), a decepção com outras pessoas (35%), a rejeição (27%), as conversas repetitivas (24%) e a pressão para manter uma imagem idealizada (20%).
Em meio a esse cansaço, uma mudança de comportamento começa a se desenhar. Os solteiros parecem estar repensando o que realmente buscam: 64% acreditam que a amizade é essencial para um amor duradouro (Happn), e 86% dos usuários analisam atentamente interesses e valores antes de tomar qualquer iniciativa. Ganha força, nesse contexto, o conceito de “loud looking”: uma busca intencional e assertiva, em que as pessoas são mais claras sobre o que querem desde o início.
Se os apps continuam sendo porta de entrada, o destino final voltou a ser o mundo real, e de um jeito mais consciente. Quase 40% dos solteiros preferem dates ao ar livre, como trilhas, brechós e aulas de cerâmica, e 80% preferem não apressar o convite para um encontro presencial (Happn). Crescem também os “dates eco-conscientes”: 75% dos brasileiros dizem que valores ambientais em comum são essenciais num parceiro.
Há, ainda, uma tendência global em ascensão: eventos, clubes e apps que incentivam justamente o que as redes sociais dificultaram, o encontro presencial, sem celular. É o caso do Kanso, em Nova York, San Francisco e Londres, que organiza eventos sociais sem telefone e, segundo os organizadores, já viu convidados ficarem além do previsto em vários encontros, “alguns fecharam negócios no dia seguinte”. Na mesma linha está o Offline Club, que cria espaços físicos pensados para promover interação sem dispositivos, e o app 222, que inverte a lógica dos apps tradicionais: identifica usuários com interesses compatíveis e os convida para encontros presenciais espontâneos, sem perfis, sem deslizar, sem rolagem infinita. Já o Sofar Sounds promove shows íntimos em espaços secretos, criando encontros reais entre desconhecidos.
E os números sustentam essa virada. Um estudo acompanhado entre 2018 e 2024 mostrou que aumentar a conexão social, mesmo que por apenas um dia, pode resultar em redução imediata dos sintomas de solidão. Já a pesquisa “No More FOMO”, feita com universitários, constatou que reduzir o uso de redes sociais em apenas 30 minutos por dia já diminui sintomas de solidão e depressão.
Esse tipo de experiência, que parece distante e quase nichada quando olhamos só para os números, já é realidade para pessoas comuns. É o caso de Yasmin Loureiro, 24 anos, publicitária, sócia do Sabores de Curitiba e gestora comercial, que participou de uma das edições do Risodate: encontro presencial organizado em torno da produção coletiva de risotos, reunindo desconhecidos numa mesma cozinha.
Yasmin foi convidada por conta do trabalho no Sabores de Curitiba e levou junto a pessoa com quem estava ficando na época e hoje é seu namorado. “A experiência foi simplesmente muito divertida, porque é um encontro bem fora do óbvio. É uma experiência diferente mesmo”, conta.
No início, os dois ficaram concentrados só na própria conversa, reflexo, talvez, do hábito de conversar a dois, mediado por tela, que a rotina digital naturaliza. Mas a dinâmica do evento não deixou esse isolamento durar muito: “Depois eles separam a gente em grupos para fazer os risotos. Então a gente conversou com várias outras pessoas. Teve uma senhora que ficou falando que a gente ia casar, que a gente era noivo”, lembra, rindo.
Para Yasmin, a diferença em relação às redes sociais está exatamente na ausência de escolha, e é isso que torna o encontro mais rico. “Em rede social você escolhe com quem você conversa. E no Risodate você conversa com quem está ali. Tinha gente de todas as idades, de vários cantos do Brasil, pessoas que, teoricamente, eu jamais teria contato. E através do evento eu tive.”
A experiência, segundo ela, não terminou ali. Replicou em casa, entre amigas, e se tornou recomendação espontânea: “Semana passada mesmo minhas amigas vieram e eu fiz uma receita do Risodate e falei sobre ele. Já recomendei para outras pessoas. É uma experiência muito legal para você se jogar, fazer uma coisa diferente, aprender uma coisa nova. É um momento muito único.”
Então, em suma, talvez o problema nunca tenha sido a tecnologia em si, mas o tipo de escolha que ela nos permite fazer e com que frequência escolhemos a opção mais segura, mais filtrada, mais parecida com a gente. O algoritmo entrega quem se parece com nossas preferências; o presencial entrega quem está, simplesmente, ali.
Se conexão real sempre exigiu algum grau de imprevisibilidade, encontrar quem não escolheríamos, ouvir o que não esperávamos, ficar num espaço sem rota de saída fácil, talvez a pergunta não seja se ainda é possível criar vínculo fora das telas. Talvez seja: quantas vezes, essa semana, você escolheu o caminho mais confortável quando o real exigia que você se arriscasse?
