Em abril de 2020, os cartórios brasileiros registraram apenas 24.976 casamentos: uma queda brutal de 62% comparada aos 65.242 matrimônios, do mesmo mês, em 2019. Era o início da pandemia, e o mundo inteiro se calou. Mas, o que aconteceu depois, quando as restrições foram relaxadas e a vida voltou a se desenrolar, foi algo mais profundo do que um simples adiamento: uma mudança de mentalidade que perdura até hoje.
Cinco anos depois, o Brasil ainda não recuperou o nível de casamentos de antes da pandemia do covid-19. Em 2023, foram 940.800 casamentos civis: 8,2% menos do que os 1,025 milhão registrados em 2019. São quatro anos consecutivos abaixo de um milhão de matrimônios. O declínio não é apenas estatístico: é comportamental. O “sim” no cartório, que antes parecia uma etapa obrigatória da vida adulta, tornou-se uma escolha e muitas vezes, uma escolha difícil.
Por quê? A resposta está numa palavra que ecoa em conversas entre noivos, consultores de casamento e especialistas em comportamento: espetacularização.

Quando o “sim” virou conteúdo
Casar em 2026 pode custar até R$ 300 mil. O ticket médio por festa é de R$ 69 mil. O setor movimenta R$ 32 bilhões no país, com aproximadamente 472 mil cerimônias anuais. Esses números não são apenas impressionantes, são inacessíveis para a maioria dos brasileiros.
A estrutura de gastos revela a lógica da ostentação:
Buffet: 17,3% do orçamento total
Espaço: 10,42%
Decoração: 9,5%
Flores: 8,4%
O buffet, sozinho, consome quase um quinto do orçamento. Em casamentos tradicionais com 100 a 300+ convidados, o custo total oscila entre R$ 60.000 e R$ 300.000. Para o casamento civil no Sudeste, o cartório custa entre R$ 600 e R$ 1.400, um dos gastos mais baixos da festa, mas que simboliza a entrada num sistema de despesas crescentes.
E aqui está o ponto crítico: o casamento precisa de performance. Ele precisa ser caro, ostentativo, com muitos ativos que o tornem inacessível. Precisa ser documentado, fotografado, postado. Precisa gerar conteúdo para o Instagram.
Muitos casais hoje estão vivendo para postar. O noivado é anunciado em foto cenográfica. O vestido é desvendado em vídeo de 60 segundos. A festa é um palco de ostentação onde cada detalhe, desde as flores até o buffet deve impressionar. O casamento tornou-se espetáculo. E, como todo espetáculo, exige investimento.
A modelo e influenciadora Letícia Dagnoni casou neste ano, em São Paulo, com um mini wedding somente para o núcleo familiar: ela e o noivo receberam 14 convidados.

“Foi a decisão que a gente sempre imaginou que tomaria, mas existe sim um momento em que você cogita algo maior, porque é o tradicional e que todo mundo espera”
A escolha pela União Estável
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) identificou o motivo com clareza: “casamento é acompanhado de despesas. Pessoas não querem assumí-las”.
A sociedade brasileira mudou. O casamento não é mais exigência das famílias, nem da sociedade. Há maior liberdade para viver em união estável sem a formalidade do cartório. A sociedade é “mais líquida”, como diria Bauman, menos presa a questões sociais tradicionais.
Os dados confirmam essa mudança: Em 2023, 440.800 divórcios foram registrados: recorde histórico, com aumento de 4,9% em relação a 2022. O tempo médio entre casamento e divórcio caiu de 15,9 anos (2003) para 13,8 anos (2024). E a idade média de casamento aumenta: 25,1% das mulheres casam com 40+ anos, contra 8,2% em 2003.
O casamento não é mais uma etapa obrigatória, é escolha. E quando a escolha envolve gastar no mínimo R$ 69 mil (e até R$ 300 mil) muitos optam por não fazer.
O ponto de virada
A queda de 62% em abril de 2020 foi o primeiro sinal. Mas a recuperação lenta que veio depois: até 2023, o Brasil ainda estava 8,2% abaixo de 2019, que revelou algo mais profundo.
Durante os primeiros meses da pandemia (março, abril e maio), os números de casamentos registrados no país passaram por uma queda considerável. Em abril 2020, apenas 24.976 registros, contra 65.242 em abril 2019.
Mas a recuperação começou em setembro 2020, com +143% em relação a abril (61.799 registros). As restrições foram relaxadas. As festas voltaram. Mas a mentalidade não retornou ao mesmo lugar.
O adiamento de cerimônias durante a pandemia transformou-se em mudança de comportamento. Casais que adiaram por um ano adiaram por dois. E quando finalmente decidiram casar, muitos optaram por formatos diferentes: menores, mais intimistas, menos ostentosos.
Um 2026 que nega o espetáculo
Há um movimento contrário, e ele é significativo.
A maior tendência para casamentos personalizados em 2026 é justamente a retomada da essência de cada celebração, de cada casal, de cada história e trajetória. Da origem latina, pode ser honrar, fazer solenidade ou festejar. Mas dos significados que damos na atualidade, muitos perderam o sentido original.
Casamentos menores com listas reduzidas estão ganhando força, e eventos de ostentação estão perdendo espaço. A tendência é de mini weddings com 20 a 80 convidados, custando entre R$ 15.000 e R$ 50.000 (ainda caro, mas menos do que o tradicional). A mudança é clara: casamentos intimistas, minimalistas, focados em experiências emocionais estão substituindo a ostentação.
Letícia, apesar de sempre ter priorizado uma celebração pequena, conta que o desejo de priorizar a qualidade e a personalidade dela e do noivo também pesou na escolha para o seu mini wedding:

“Eu sou muito crítica. Eu queria fazer tudo do meu gosto, do bom e do melhor, e do jeito que eu quisesse […] Parando para pensar no financeiro, se eu fizesse uma festa do mesmo padrão que eu fiz o meu, pequeno, mas para 200 ou 150 pessoas, eu acho que seria um orçamento absurdo”.
E há dados que corroboram essa mudança comportamental: um estudo do Personality and Social Psychology Bulletin, que acompanhou 2.847 casais ao longo de 5 anos, observou que casais que mantêm o relacionamento mais privado nas redes sociais tiveram maior felicidade. A exposição excessiva nas redes sociais pode contribuir para a infelicidade do casal e até o fim da relação.
O Futuro: personalização e autenticidade
O casamento brasileiro está em dualidade. De um lado, a ostentação: 300 convidados, buffet de 17,3% do orçamento, postagens no Instagram, ostentação como padrão esperado. Do outro, a intimidade: mini weddings, listas reduzidas, experiências emocionais, essência do casal, privacidade nas redes sociais.
O futuro aponta para personalização e autenticidade. Casamentos que não são mais exigência, mas escolha. Celebrações que honram a história do casal, não o espetáculo para os outros.
A espetacularização do casamento transformou o “sim” em performance. Mas a contracorrente de 2026 revela que muitos noivos estão percebendo: o casamento não é espetáculo. É celebração. É essência. É o casal, não o palco.

Letícia aborda sobre a indústria do casamento e sobre como virou uma “fábrica de fazer dinheiro”, que induz os noivos a gastar cada vez mais. A modelo não concorda com a espetacularização constante: “Pra mim, o casamento é muito mais sobre o casal, sobre o porque você tá casando, sobre o sacramento, do que de fato a festa e o conteúdo”.
E talvez, no final, a verdadeira tendência seja essa: voltar ao significado original de celebrar. Honrar. Festejar. Mas sem a necessidade de performar para os outros.
