Se você espera encontrar uma Kara madura e totalmente formada, está enganado. O filme apresenta uma Supergirl comemorando seus 23 anos e, apesar de ser uma alienígena com superpoderes, ela ainda é uma jovem adulta em busca de um rumo para a própria vida. Como muitos nessa fase, ela se sente perdida e tenta lidar com a dor causada pela perda de sua família.
Andando de bar em bar, se refugia na bebida para escapar de seus traumas. Mesmo tendo em seu primo, Superman, alguém capaz de ajudá-la, Kara demonstra dificuldades para se adaptar ao planeta Terra. Seu maior conforto é encontrado em Krypto, seu fiel companheiro, que acaba se tornando a principal motivação para a jornada da heroína. Assim, Milly Alcock mostra a que veio e entrega uma atuação convincente, interpretando com sensibilidade uma super-heroína em construção. Ao longo do filme, é possível acompanhar as diferentes fases da personagem, o que contribui para torná-la mais humana e complexa.
O novo uniforme da Supergirl aposta em uma leitura mais jovem e contemporânea da heroína. O figurino atualiza sua identidade visual dentro do próprio universo do traje, construindo uma releitura coerente com a fase da personagem. As cores clássicas azul, vermelho e amarelo permanecem, assim como a saia, as botas de cano alto, o cinturão dourado e o símbolo “S” no peito, reforçando a continuidade da sua iconografia.
O trench coat da Supergirl aparece quase como aquela peça inesperada que muda tudo no look sem esforço. Dá até para imaginar que ela passou pela Terra, entrou em uma loja qualquer e saiu com ele debaixo do braço, ou quem sabe ganhou do próprio Clark, no estilo Clark Kent mesmo, algo mais humano e discreto, bem a cara dele fora do uniforme. É uma peça que poderia facilmente estar em uma apresentação da Burberry inverno 2026, mas dentro do filme ela não quer ser passarela. A peça funciona justamente por isso, porque deixa essa Supergirl mais leve, meio despretensiosa, como alguém que ainda está montando o próprio estilo enquanto salva o universo.
A trilha sonora, embalada por “The Girl From Ipanema” (alienígena’s version), confere ao filme uma atmosfera pop interessante, mas não é cativante o suficiente para transformar a produção em algo realmente memorável. No campo técnico, os efeitos visuais deixam a desejar em alguns momentos, com um CGI que não transmite profundidade suficiente às imagens. Além disso, em determinadas cenas noturnas, a fotografia excessivamente escura dificulta a visualização e acaba prejudicando parte da experiência.
Outro elemento que não funciona tão bem é a presença da jovem antagonista, Ruthye Marye Knoll. A personagem oscila entre momentos de extrema fragilidade e outros em que demonstra habilidades com a espada sem que o roteiro explique quando ou como adquiriu esse treinamento. Apesar de sua motivação estar ligada à perda e ao desejo de vingança, Ruthye não é desenvolvida de maneira consistente o bastante para despertar empatia ou fazer o público torcer por ela.
Mesmo com motivações fortes e acontecimentos dramáticos, Supergirl não consegue transformar essas perdas em algo realmente impactante. O quase sacrifício de Krypto, a tragédia envolvendo a família da antagonista e os dilemas da própria heroína deveriam ser suficientes para criar uma conexão emocional maior, mas o roteiro previsível e o ritmo irregular fazem com que tudo pareça menos intenso do que poderia ser. Dessa maneira, em nenhum momento existe a sensação de que algo realmente está em risco, porque o espectador sabe que os personagens mais importantes estarão salvos.
Assim, Supergirl transmite a sensação de que busca apenas não desagradar o público, ser amado seria apenas um bônus. O filme funciona mais como uma peça de construção para o futuro do novo Universo DC do que como uma história capaz de se sustentar sozinha. O que acaba sendo frustrante, visto que a personagem possui inúmeras possibilidades e carisma suficiente para protagonizar algo mais memorável, o que a atuação de Milly Alcock demonstra ser capaz de sustentar.
A sensação final é que Supergirl é um filme agradável, mas facilmente esquecível. Se os próximos capítulos desse universo não derem continuidade aos acontecimentos apresentados aqui, a produção corre o risco de ser apagada da memória do público e de parecer apenas mais um filme de super herói. Há boas ideias e elementos interessantes, mas falta força narrativa para transformar tudo isso em uma experiência realmente marcante.
