Toda vez que agosto chega, eu penso em Gramado antes de pensar em qualquer outra coisa. Não sei bem quando isso virou hábito, mas talvez aconteça com você também. E esse ano, com a 54ª edição do festival acontecendo de 12 a 22 de agosto, quero falar sobre o motivo desse evento ser tão importante.
Tem um dado que precisa ser destacado: Gramado é o festival de cinema ininterrupto mais antigo do país. Desde 1973. Ininterrupto. Numa cultura que troca de assunto a cada scroll, existe algo bonito em um evento que insiste em voltar, ano após ano, para fazer a mesma pergunta: o que o cinema brasileiro tem pra dizer sobre nós agora?
Um festival, duas linguagens
Gramado sempre operou em dois registros simultâneos, e é exatamente aí que mora o interesse cultural do evento. De um lado, o cinema propriamente dito: mostras competitivas, descobertas de novos diretores, debates sobre o que o audiovisual brasileiro tem a dizer sobre si mesmo. De outro, o espetáculo: o tapete vermelho na Rua Coberta, a produção de imagem em torno dos artistas, a cidade inteira decorada para performar glamour por onze dias. Nenhum dos dois registros anula o outro; eles se alimentam. É essa tensão entre arte e vitrine que faz de Gramado um objeto tão rico para quem pensa cultura, moda e comunicação. Não à toa, o festival funciona quase como um estudo de caso vivo sobre como a imagem pública é construída, negociada e consumida.
A seleção: um retrato do cinema brasileiro em transição
A curadoria de longas de ficção, assinada pelas atrizes Ana Flavia Cavalcanti e Camila Morgado ao lado do crítico Marcos Santuari, trouxe seis títulos inéditos ao público brasileiro para a disputa do Kikito, o troféu criado pela artesã gramadense Elisabeth Rosenfeld. O dado mais interessante talvez seja este: três dos seis filmes marcam a estreia de seus diretores em longas de ficção: Grace Passô, Carlos Segundo e Marcello Ludwig Maia, um sinal de que a curadoria decidiu apostar em vozes emergentes em vez de repetir nomes consagrados.
Entre os concorrentes, dois títulos já chegam como favoritos à conversa. Chorão: Só os Loucos Sabem, de Hugo Prata e Felipe Novaes, revisita a trajetória do vocalista do Charlie Brown Jr., tema biográfico-musical que costuma gerar tanto emoção quanto apuração crítica. E Pele de Rinoceronte, de Marcello Ludwig Maia, ambientado nos anos 1970, acompanha uma jornalista (Débora Falabella) investigando um crime que ajudou a inaugurar o debate público sobre feminicídio no Brasil, um filme que promete costurar memória histórica e urgência contemporânea. Completam a lista Feito Pipa, de Allan Deberton; Justino – Nos Bastidores do Reino, de José Eduardo Belmonte; e Nosso Segredo, de Grace Passô.
A abertura oficial, em 14 de agosto, é hors-concours: Antártida, thriller de Bruno Safadi estrelado por Andrea Beltrão, Marina Ruy Barbosa, Leandra Leal, Antonio Calloni e Lázaro Ramos, no qual uma agressão dentro de uma base científica brasileira transforma todos os homens presentes em suspeitos, investigação conduzida por mulheres. Já o encerramento, novidade desta edição, fica com La Perra, coprodução chileno-brasileira de Dominga Sotomayor com Selton Mello no elenco.
Homenagens: cinco nomes em vez de quatro
Outra mudança simbólica de 2026: o festival ampliou de quatro para cinco o número de homenageados. Maria Fernanda Cândido e Selton Mello recebem o Kikito de Cristal, reservado a nomes do cinema brasileiro com projeção internacional. Marcos Caruso leva o Troféu Cidade de Gramado, reconhecimento a profissionais que ajudaram a construir a história do audiovisual nacional, mais de quatro décadas de carreira entre teatro, TV e cinema. Andréa Beltrão recebe o Troféu Oscarito, e Renata Almeida Magalhães é agraciada com o Troféu Eduardo Abelin.
Além da ficção: documentário, curtas e o olhar gaúcho
A mostra de documentários reúne quatro longas: entre eles Gonzaguinha, Da Maior Liberdade, de Susanna Lira, e Afrontosa, de Coraci Ruiz e Julio Matos, enquanto a competição de curtas brasileiros soma catorze títulos vindos de norte a sul do país. Gramado também reafirma seu compromisso regional com a Mostra Competitiva de Longas-metragens Gaúchos e os 18 curtas selecionados para o Prêmio Assembleia Legislativa, mantendo viva a ideia do festival desde sempre de que o cinema nacional também se constrói de dentro para fora, a partir do território.
O ecossistema em volta das telas
Para quem acompanha o festival como fenômeno cultural mais amplo, e não só como calendário de sessões, vale registrar o que acontece ao redor do Palácio dos Festivais. O programa Cinema nos Bairros leva sessões a escolas da região; mostras paralelas como Dream Team, Grenal, Santiago e Anita ampliam o recorte temático; e o Gramado Film Market, entre 13 e 18 de agosto, consolida a dimensão de indústria do evento, com a novidade de uma Residência para Jovens Cineastas.
E há, claro, a Gramado que não cabe dentro do cinema: entre 20 e 23 de agosto, o Gramado Weekend toma conta da Expo Gramado e do Serra Park com festas como a Luminous Party e a Mirada, esta última com tema “Uma História de Cinema”, além da 17ª edição do Carpe Vita. É a prova de que, décadas depois de sua criação, o festival segue funcionando como bem cultural híbrido: parte cinema, parte moda, parte sociabilidade de elite, parte experiência aberta ao público na Rua Coberta, onde o tapete vermelho pode ser visto de graça.
Por que vale acompanhar
Se há um fio condutor nesta edição, é a sensação de que Gramado está tentando equilibrar duas coisas nem sempre fáceis de conciliar: a expansão do espetáculo (mais homenageados, retorno do filme de encerramento, agenda de festas cada vez mais robusta) e uma curadoria de ficção deliberadamente voltada a estreias e vozes novas. Para quem pensa cultura, comunicação de marca e construção de imagem pública, é um recorte e tanto: um festival que, ao completar 54 anos, continua sendo tanto vitrine de talento quanto laboratório vivo de como o Brasil narra a si mesmo, e de como quer ser visto fazendo isso.
