Lembra quando as revistas eram relevantes?

Crítica de “O Diabo Veste Prada 2”.
Foto de Lohany Sorgen

Lohany Sorgen

Divulgação/20th Century Studios Brasil

Eu costumo dizer que boa parte da culpa de eu ter escolhido trabalhar com jornalismo e com moda veio de filmes que eu consumi durante a infância e sempre que citamos esse tema é impossível não lembrar de “O Diabo Veste Prada”. Cada vez que a música clássica da cena de abertura toca, sou imediatamente transportada para as sensações que tinha ao assistir. Quando a sequência foi anunciada, confesso que o medo era maior do que a expectativa mas, felizmente, ao chegar no cinema fui surpreendida positivamente por um filme divertido, nostálgico e que manteve a essência dos personagens, sem perder os upgrades de vinte anos depois. 

Mais do que um filme sobre moda e uma comédia típica dos anos 2000, o primeiro filme questionou muito o mercado editorial e de trabalho da época, especialmente as relações chefe x empregado. Dessa maneira, ODVP 2 nos entrega pautas cheias e atuais. Logo de cara, já somos impactados com a atmosfera do jornalismo se transformando. Equipes inteiras sendo demitidas e uma profissional que precisa se adaptar à era digital, onde as informações são consumidas de forma rápida e são poucos os leitores que ainda se interessam pelo impresso e por matérias densas. Logo na sua primeira cena do comeback, Emily diz “Lembra quando as revistas eram relevantes?” e isso diz respeito mais ao nosso cenário dos últimos anos do que gostaríamos. 

Ao decorrer do filme e de Andy vencendo os seus desafios, vemos uma Anne Hathaway ainda mais brilhante e uma personagem que não se perdeu de quem era, mas ganhou confiança e alguns anos de bagagem para continuar batendo de frente com o que acredita, seja na Vanguard ou na Runaway. Além disso, sua relação com a moda também demonstra sua autoconfiança e seus figurinos permeiam o quiet-luxury de maneira muito interessante e autêntica. Sua jornada no filme é coesa, com o detalhe de um relacionamento amoroso que não fez parte nem que sim nem que não da história principal, mas nos relembra as outras camadas de Sachs, além do seu trabalho. 

Ao encontro disso, Miranda também evoluiu e se tornou ainda mais sarcástica e apaixonada pelo seu trabalho. Claro, a performance de Meryl Streep foi mais uma vez impecável e condizente com a fama da personagem, que é humana, ambígua e não nos deixa tirar o olho da tela do cinema. Com ela, a relação com a revista ganha ainda mais força e transforma o ofício do dia a dia em pertencimento, mesmo que isso, muitas vezes, a faça abrir mão de outros momentos e fases. 

Somando as duas personagens, temos uma das relações mais interessantes e deliciosas de assistirmos: desde os momentos engraçados com a Miranda sequer lembrando da existência de Andy, até momentos onde a guarda das duas está baixa e não vemos nem a busca por validação extrema, de um lado, e nem a armadura, do outro. Afinal, no fim do dia, as duas estão buscando resultados muito similares e são muito mais parecidas do que acreditam, conforme já percebemos no primeiro filme. 

Além disso, dois personagens voltam com a força que mereciam: Emily e Nigel. Emily, por uma óptica, nos surpreende com sua maturidade e carreira no luxo bem estabelecida e seu papel ao longo da trama foi o mais surpreendente. Já Nigel, demonstra, mesmo com o passar dos anos, ser o mesmo profissional fiel e amoroso, mesmo quando acredita não receber o crédito devido. Ele se mantém firme e não age como todos com Miranda, por exemplo, pois acredita no seu trabalho e entrega. 

E sendo um canal de moda, é impossível não trazer nessa crítica a magnitude de um filme bem feito e que traz esse tema muito além do óbvio. Claro, em comparação ao primeiro, além da qualidade da imagem ser muito melhor e vermos cada peça com os detalhes merecidos, não recebemos algo pautado no mainstream: seria muito fácil colocar apenas a Dior e a Chanel sendo citadas ou utilizadas ao longo da trama, mas para quem gosta, aprecia e estuda moda, os modelos, marcas e referências citadas agregam muito valor ao o que assistimos. Mas além da estética, o filme também dialoga com um mercado de moda em constante transformação, atravessado por discussões sobre relevância, velocidade e identidade. Entre o luxo tradicional e as novas narrativas que surgem com o digital, fica evidente como a indústria deixou de ser apenas sobre tendências e se pauta, também, nos posicionamentos.

Por fim, embora o filme perca um pouco do ritmo inicial do meio para o fim, com uma desaceleração que sugere certa hesitação em tensionar de fato os conflitos que propõe, ao apostar na nostalgia e no conforto de revisitar essas personagens, o roteiro por vezes evita levá-las a lugares mais incômodos. Ainda assim, entrega o que se espera de uma sequência: a sensação de conforto e familiaridade ao olhar para a tela (desta vez no cinema, e não na televisão de casa, como foi o meu caso). O melhor? Faz tudo isso com sutileza, referências bem colocadas e um senso de pertencimento que não é só dos personagens, mas também de quem cresceu com essa história.

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