Era o final da década de 1980 e um nome entrava em ascensão na cena do rap brasileiro: Sharylaine, nascida na Zona Leste de São Paulo, foi a primeira cantora a conquistar um espaço que era majoritariamente dominado por homens. Anos depois, outros nomes surgiram, como Dina Di, Flora Matos, Negra Li e, dentre os mais atuais, Duquesa e Julia Costa, mas um questionamento e inquietação segue, até os dias de hoje, na mente de quem consome esse gênero: por que, apesar de tanto talento, as mulheres ainda lutam por protagonismo em um movimento que elas ajudaram a construir?
O rap chegou ao Brasil no final dos anos 1980, importado dos EUA por meio de jovens periféricos de São Paulo que absorviam discos de breakdance e hip-hop em bailes e feiras como a Galeria 24 de Maio. Dessa maneira, os primeiros passos aconteceram com a dança: b-boys como Nelson Triunfo ocupavam espaços centrais como a Estação São Bento e Rua Dom José de Barros, usando boomboxes para treinos de breaking, que evoluíram para rimas sobre violência policial e desigualdades. Assim, desde o surgimento do gênero em nosso país, mulheres estavam inseridas, participando das rodas de break e rimando em coletâneas iniciais como Hip-Hop Cultura de Rua (1988). Sharylaine foi uma das primeiras a gravar faixas neste álbum ao lado de Thaíde e DJ Hum, rimando sobre periferias e resistência.

Alguns anos mais tarde, a dominação feminina no rap veio acompanhada da ascensão do digital. A virada veio, especialmente, com nomes como Flora Matos e Negra Li, que utilizavam o MySpace e Youtube para divulgarem seus trabalhos, misturando rap com soul e reggae. Dessa maneira, elas pavimentaram o caminho para nomes como Tássia Reis, Drik Barbosa e Karol Conká, que lotaram playlists e festivais como o Lollapalooza, enquanto coletivos como Sala dos Rimas e Rinha das Divas ampliaram a sororidade online. Hoje, essa herança digital ainda impulsiona o domínio e prova que as plataformas também reescreveram a história do gênero.
Entretanto, mesmo com uma história forte e de muita evolução, o cenário ainda apresenta dificuldades para as mulheres. Segundo a jornalista Bárbara Bitencourt, a estrutura do rap ainda é totalmente desigual para as mulheres, especialmente em termos de cachês e estrutura de shows, citando como exemplo a disparidade entre artistas como Matuê e Teto, e a artista Duquesa. Apesar disso, ela observa uma grande preocupação por parte das mulheres em entregar shows bem feitos, bem estruturados e com letras mais elaboradas, o que reforça ainda mais a descredibilização por parte de contratantes e do mercado como um todo.
O PAPEL DA MÍDIA E O IMPACTO DA INTERNET
A relação entre a internet, a mídia e as artistas é, de certa forma, agridoce. Ao mesmo tempo que pode ajudar a alavancar carreiras, dar visibilidade e voz para alcançarem pessoas, cria dinâmicas que, muitas vezes, simplificam narrativas e reduzem trajetórias a momentos virais ou estéticas passageiras, além de, claro, conseguir ser muito cruel com quem está do outro lado.
Há uma percepção de que a mídia se apropria do engajamento gerado pelas artistas, tornando um movimento cool gostar de mulheres no rap, mas a internet tanto ajuda na visibilidade quanto atrapalha o movimento. Um exemplo disso é o caso de Ebony, que recusou um prêmio de revelação do Wom’s Music Evento, dado para Nanda Tsunami, o que sugere que a internet influencia muito essa dinâmica. Embora as plataformas digitais democratizem o espaço, o consumo de música atual, focado em recortes de TikTok, atrapalha a compreensão completa do trabalho das artistas.
Bárbara também considera que as grandes mídias, como Globo e Rolling Stones, ainda dão visibilidade às mulheres do rap de forma nichada, lembrando delas apenas em momentos específicos como Março (Dia Internacional da Mulher) e Novembro (Mês da Consciência Negra). A crítica é que elas são agrupadas no mesmo nicho, apesar de terem estilos de rap claramente diferentes, o que não acontece com artistas homens. Por isso, entende-se a importância de que a mídia valorize o trabalho das artistas e reconheça que elas estão “puxando a cena”.
“As redes sociais têm um papel maravilhoso ao permitir que as artistas se comuniquem com o público certo, especialmente com meninas negras que se identificam com suas mensagens e superam inseguranças. As plataformas digitais chegam a quem talvez não tenha acesso a grandes mídias, como a TV Globo. Este alcance permite que as artistas falem diretamente com a comunidade, como Júlia Costa fez ao encorajar as meninas a continuarem acreditando em si mesmas.”, comenta Bárbara.
Reprodução: Tiktok @laisnevesvalente.
No entanto, esse mesmo ambiente exige constância, exposição e uma performance contínua que nem sempre acompanha o tempo criativo das artistas. A lógica do algoritmo pressiona por relevância imediata, o que pode desviar o foco da construção artística para a manutenção do engajamento. Ainda assim, muitas artistas têm ressignificado esse espaço, utilizando a internet não apenas como vitrine, mas como ferramenta de narrativa, posicionamento e autonomia.
ABRINDO CAMINHOS
Em meio à tantos desafios e histórias que inspiram, o Rio Grande do Sul lançou um dos nomes em ascensão nesse cenário e que, modéstia à parte, muito nos orgulha. Cristal Rocha, ou apenas Cristal, iniciou sua carreira artística publicamente aos 15 anos, tendo sido incentivada desde a infância a se envolver com artes. Seu primeiro contato profissional com o universo da música foi através do Slam, um campeonato de poesia falada com obras autorais, que a levou a um ritmo competitivo e a mostrou que seus pensamentos tinham relevância na rua. Depois de muito estudo e sabendo exatamente onde queria chegar, seu primeiro EP e single foi lançado em 2019 – um passo que, anos depois, a levaria ao palco do Prêmio Multishow, em 2023.
A trajetória de Cristal também é atravessada por um elemento central em sua construção artística: o território. Ser gaúcha, segundo ela, não apenas moldou sua estética, mas também tensiona sua existência dentro do próprio cenário musical. Ao se reconhecer como uma mulher negra fora do eixo dominante, a artista passou a entender como, muitas vezes, sua presença era percebida como “invisível” em outros contextos. Em vez de recuar, transformou esse deslocamento em linguagem: um ponto de partida para construir uma identidade própria e potente dentro de um cenário independente altamente competitivo.

Mas essa construção não aconteceu sem riscos: em 2019, quando começou a se posicionar no mercado, ser uma mulher jovem no rap, especialmente fora dos grandes centros, era um movimento cercado de incertezas. Ainda assim, Cristal encontrou força nas referências que vieram antes dela. Nomes como Drica Barbosa e o coletivo Rimas e Melodias foram fundamentais para ampliar seu repertório e sua visão de futuro. Para além dos palcos, ela também reconhece a importância de quem atua nos bastidores. Mulheres como Areta Ramos exemplificam o papel transformador do hip hop como ferramenta de educação e impacto social. Essa rede de atuação, que vai da arte à formação, reforça o caráter coletivo e político do movimento, algo que a própria Cristal hoje vivencia ao colaborar com artistas que um dia foram suas referências.
No entanto, ocupar esse espaço ainda implica enfrentar uma série de expectativas e estereótipos. Cristal questiona a constante tentativa de enquadrar mulheres em padrões específicos dentro do rap, seja pela estética ou pela performance. “Sempre me incomodei com a necessidade de as mulheres se moldarem às expectativas, sentindo uma pressão para que as artistas femininas se enquadrem em caixas específicas, como usar salto e saia curta para fazer “rap feminino”. Segundo ela, Existe uma cobrança silenciosa, mas persistente, sobre como uma mulher deve se apresentar: se assume uma postura mais sensual, tem sua arte reduzida ao corpo; se escolhe uma estética mais neutra, é acusada de performar masculinidade. Em resposta, a artista reivindica o direito de existir fora dessas categorias, usando a moda como extensão de sua narrativa e não como imposição.
Para ela, a moda não é superficial, mas sim a linguagem. Antes mesmo da música começar, a imagem já comunica. E quando alinhada ao discurso artístico, cria uma experiência completa, capaz de fortalecer sua autoestima e também impactar quem a observa. É nesse cruzamento entre som e imagem que Cristal constrói uma presença que não pede permissão.
No cenário contemporâneo, a internet, como comentamos antes, aparece como uma ferramenta ambígua nesse processo. Se por um lado democratiza o acesso e permite que artistas independentes construam suas próprias audiências, por outro expõe, especialmente as mulheres, a uma pressão constante e a uma enxurrada de opiniões não solicitadas. Para Cristal, é preciso entender as redes sociais como um recurso – potente, mas que exige limite e consciência. Afinal, existe vida, criação e identidade para além das telas.
“Eu almejo abrir o caminho da coragem para que meninas não dependam de um amor romântico, de um chefe ou de uma gravadora, mas que escolham o próprio destino, se aventurem, se frustrem e se deliciem com suas próprias escolhas, não aceitando pouco.”
O que move a artista, no fim, é a possibilidade de abrir caminhos. Mais do que consolidar a própria carreira, Cristal projeta um impacto que ultrapassa sua música: ela quer que outras mulheres e meninas se reconheçam como protagonistas de suas próprias histórias. Que não dependam de validações externas e que se permitam experimentar, errar, desejar mais. Em um cenário que tantas vezes tenta reduzir, sua existência aponta expansão.
