Coragem para conhecer o novo

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Lohany Sorgen

Aos 24 anos, Tamara Klink tornou-se a mais jovem brasileira a cruzar o Oceano Atlântico sozinha, segundo a biografia publicada pela Revista Humanos. Dois anos depois, em 2024, completou uma invernagem solo de oito meses na Groenlândia, período em que permaneceu em um pequeno veleiro preso no mar congelado do Ártico. A experiência deu origem ao livro “Bom dia, inverno”, publicado pela Companhia das Letras.

Navegadora, arquiteta e escritora, Tamara construiu sua trajetória entre travessias marítimas, formação técnica e registros literários. O tema da coragem aparece, portanto, menos como uma ideia abstrata e mais como uma prática: estudar, preparar-se, reconhecer riscos e tomar decisões em ambientes nos quais o controle é limitado. A relação com o mar começou na infância. De acordo com a Editora Peirópolis, Tamara tinha oito anos quando acompanhou os pais e as irmãs em uma expedição à Antártica. A viagem também estimulou a produção de diários, que mais tarde deram origem a “Férias na Antártica”, escrito pelas irmãs Klink.

A autora relata que, aos 15 anos, pediu aos pais um barco para navegar sozinha, mas recebeu uma resposta negativa. Segundo Tamara, eles entendiam que ela ainda precisava reunir condições materiais, físicas e emocionais para realizar a viagem. Em vez de abandonar o projeto, ela passou a estudar e a pesquisar sobre navegação. “Queria ser a comandante”, afirmou no relato biográfico publicado pela Peirópolis.

Preparação antes da partida

A primeira viagem solo de Tamara ocorreu no Mar do Norte, em um pequeno veleiro chamado Sardinha. A Editora Peirópolis informa que, aos 23 anos, ela realizou essa travessia e, posteriormente, especializou-se em arquitetura naval em Nantes, na França. A formação reforçou a conexão entre a dimensão prática da navegação e o interesse da autora por escrita, desenho e reflexão. Essa trajetória está registrada em Mil milhas, livro que reúne relatos de viagem, poemas e ilustrações sobre a experiência. Segundo a apresentação da obra, o volume aborda a distância da família, os desafios da travessia e o processo de compreender-se fora do ambiente de origem.

Em “Um mundo em poucas linhas”, também publicado pela Peirópolis, Tamara reúne poemas e textos em prosa poética sobre viagens realizadas desde a infância. A editora descreve o livro como uma obra voltada às relações entre deslocamento, memória e reflexões sobre a vida. A escrita, para Tamara, tem uma função de registro e observação. Em depoimento reproduzido pela Editora Peirópolis, ela afirma: “Eu escrevo pra ter tempo de perceber a vida, que corre, escorre ao meu redor”. A autora também diz que os textos servem para mapear os lugares por onde passa e os lugares que passam por ela.

Uma mulher sozinha no Ártico

A experiência mais recente narrada em livro é a de “Bom dia, inverno”. Conforme a Companhia das Letras, Tamara viveu durante oito meses sozinha em um pequeno veleiro preso no mar congelado do Ártico Groenlandês. Em entrevista à Revista Humanos, ela contou que enfrentou temperaturas de até 40 graus Celsius negativos, com neve e vento. Também explicou que dependia de equipamentos para se proteger, derreter água e buscar alimento. Para a navegadora, a tecnologia funciona como uma maneira de compensar os limites do corpo humano em ambientes extremos.

“A armadilha da minha geração é buscar e acumular tantos objetos que passamos a servi-los em vez de fazê-los nos servir”, declarou à revista. A frase resume uma das questões presentes em seu relato: a autonomia não significa independência absoluta, mas capacidade de compreender as próprias limitações e usar os recursos disponíveis com responsabilidade.

Na mesma entrevista, Tamara relacionou a experiência no Ártico à discussão sobre meio ambiente. “Não é possível separar o humano da natureza do qual ele faz parte”, afirmou. Em outro momento, declarou que “a separação de humano e natureza é a mentira que autoriza excessos e coloca em risco muitas espécies do nosso planeta, inclusive a nossa”.

Coragem e gênero

A presença de Tamara em expedições solo também se insere em um debate sobre a participação feminina em espaços tradicionalmente associados aos homens. À Revista Humanos, ela disse que sua viagem só foi possível graças às mulheres que contestaram normas e abriram caminhos para as gerações seguintes.

A navegadora relatou, entretanto, ter enfrentado desencorajamento e comentários baseados na ideia de que uma mulher não estaria preparada para lidar com o risco. Segundo Tamara, esse tipo de discurso pode levar mulheres a limitar suas próprias possibilidades, em vez de concentrar energia na preparação necessária para avançar.

No livro “Nós – O Atlântico em solitário”, a autora narra a travessia do Atlântico realizada aos 24 anos. A Companhia das Letras apresenta a obra como um relato dos triunfos e dos percalços da expedição. O livro amplia uma característica de sua produção: o interesse não está apenas no feito final, mas também nas dúvidas, nos imprevistos e nas relações que sustentam uma viagem aparentemente solitária.

O novo como experiência de aprendizado

A trajetória de Tamara Klink não apresenta o desconhecido como um território a ser simplesmente dominado. Em seus livros e entrevistas, a novidade aparece associada à observação, à adaptação e à disposição de rever certezas. Durante a entrevista à Revista Humanos, ela contou que, no Ártico, trocava e-mails com pessoas próximas por meio de um aparelho de comunicação, como se fossem cartas. Também relatou que a ausência de respostas imediatas fez seus pensamentos se tornarem, em alguns momentos, extremos. Hoje, navegando em dupla, afirmou considerar positivo perceber que pode estar errada.

A declaração desloca a ideia tradicional de coragem. Para Tamara, conhecer o novo não significa agir como se o medo não existisse, nem acreditar que a autonomia elimina a necessidade dos outros. Significa preparar-se para a incerteza, reconhecer vulnerabilidades e continuar aprendendo. É nesse ponto que sua literatura se aproxima do tema desta matéria. Em Férias na Antártica, Um mundo em poucas linhas, Mil milhas, Nós e Bom dia, inverno, a partida é também uma forma de investigação. O mar, o gelo e a distância funcionam como cenários concretos para perguntas sobre identidade, pertencimento, gênero, tecnologia e meio ambiente.

Ao transformar essas experiências em relatos, poemas e desenhos, Tamara Klink mostra que o novo não precisa ser conhecido de uma só vez. Às vezes, ele começa com uma pergunta, continua com preparação e só se revela plenamente depois da partida.

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