Gramado 2026: o que esperar da 54ª edição do festival de cinema mais longevo do Brasil

Foto de Lohany Sorgen

Lohany Sorgen

Toda vez que agosto chega, eu penso em Gramado antes de pensar em qualquer outra coisa. Não sei bem quando isso virou hábito, mas talvez aconteça com você também. E esse ano, com a 54ª edição do festival acontecendo de 12 a 22 de agosto, quero falar sobre o motivo desse evento ser tão importante.

Tem um dado que precisa ser destacado: Gramado é o festival de cinema ininterrupto mais antigo do país. Desde 1973. Ininterrupto. Numa cultura que troca de assunto a cada scroll, existe algo bonito em um evento que insiste em voltar, ano após ano, para fazer a mesma pergunta: o que o cinema brasileiro tem pra dizer sobre nós agora?

Um festival, duas linguagens

Gramado sempre operou em dois registros simultâneos, e é exatamente aí que mora o interesse cultural do evento. De um lado, o cinema propriamente dito: mostras competitivas, descobertas de novos diretores, debates sobre o que o audiovisual brasileiro tem a dizer sobre si mesmo. De outro, o espetáculo: o tapete vermelho na Rua Coberta, a produção de imagem em torno dos artistas, a cidade inteira decorada para performar glamour por onze dias. Nenhum dos dois registros anula o outro; eles se alimentam. É essa tensão entre arte e vitrine que faz de Gramado um objeto tão rico para quem pensa cultura, moda e comunicação. Não à toa, o festival funciona quase como um estudo de caso vivo sobre como a imagem pública é construída, negociada e consumida.

A seleção: um retrato do cinema brasileiro em transição

A curadoria de longas de ficção, assinada pelas atrizes Ana Flavia Cavalcanti e Camila Morgado ao lado do crítico Marcos Santuari, trouxe seis títulos inéditos ao público brasileiro para a disputa do Kikito, o troféu criado pela artesã gramadense Elisabeth Rosenfeld. O dado mais interessante talvez seja este: três dos seis filmes marcam a estreia de seus diretores em longas de ficção: Grace Passô, Carlos Segundo e Marcello Ludwig Maia, um sinal de que a curadoria decidiu apostar em vozes emergentes em vez de repetir nomes consagrados.

Entre os concorrentes, dois títulos já chegam como favoritos à conversa. Chorão: Só os Loucos Sabem, de Hugo Prata e Felipe Novaes, revisita a trajetória do vocalista do Charlie Brown Jr., tema biográfico-musical que costuma gerar tanto emoção quanto apuração crítica. E Pele de Rinoceronte, de Marcello Ludwig Maia, ambientado nos anos 1970, acompanha uma jornalista (Débora Falabella) investigando um crime que ajudou a inaugurar o debate público sobre feminicídio no Brasil, um filme que promete costurar memória histórica e urgência contemporânea. Completam a lista Feito Pipa, de Allan Deberton; Justino – Nos Bastidores do Reino, de José Eduardo Belmonte; e Nosso Segredo, de Grace Passô.

A abertura oficial, em 14 de agosto, é hors-concours: Antártida, thriller de Bruno Safadi estrelado por Andrea Beltrão, Marina Ruy Barbosa, Leandra Leal, Antonio Calloni e Lázaro Ramos, no qual uma agressão dentro de uma base científica brasileira transforma todos os homens presentes em suspeitos, investigação conduzida por mulheres. Já o encerramento, novidade desta edição, fica com La Perra, coprodução chileno-brasileira de Dominga Sotomayor com Selton Mello no elenco.

Homenagens: cinco nomes em vez de quatro

Outra mudança simbólica de 2026: o festival ampliou de quatro para cinco o número de homenageados. Maria Fernanda Cândido e Selton Mello recebem o Kikito de Cristal, reservado a nomes do cinema brasileiro com projeção internacional. Marcos Caruso leva o Troféu Cidade de Gramado, reconhecimento a profissionais que ajudaram a construir a história do audiovisual nacional, mais de quatro décadas de carreira entre teatro, TV e cinema. Andréa Beltrão recebe o Troféu Oscarito, e Renata Almeida Magalhães é agraciada com o Troféu Eduardo Abelin.

Além da ficção: documentário, curtas e o olhar gaúcho

A mostra de documentários reúne quatro longas: entre eles Gonzaguinha, Da Maior Liberdade, de Susanna Lira, e Afrontosa, de Coraci Ruiz e Julio Matos, enquanto a competição de curtas brasileiros soma catorze títulos vindos de norte a sul do país. Gramado também reafirma seu compromisso regional com a Mostra Competitiva de Longas-metragens Gaúchos e os 18 curtas selecionados para o Prêmio Assembleia Legislativa, mantendo viva a ideia do festival desde sempre de que o cinema nacional também se constrói de dentro para fora, a partir do território.

O ecossistema em volta das telas

Para quem acompanha o festival como fenômeno cultural mais amplo, e não só como calendário de sessões, vale registrar o que acontece ao redor do Palácio dos Festivais. O programa Cinema nos Bairros leva sessões a escolas da região; mostras paralelas como Dream Team, Grenal, Santiago e Anita ampliam o recorte temático; e o Gramado Film Market, entre 13 e 18 de agosto, consolida a dimensão de indústria do evento, com a novidade de uma Residência para Jovens Cineastas.

E há, claro, a Gramado que não cabe dentro do cinema: entre 20 e 23 de agosto, o Gramado Weekend toma conta da Expo Gramado e do Serra Park com festas como a Luminous Party e a Mirada, esta última com tema “Uma História de Cinema”, além da 17ª edição do Carpe Vita. É a prova de que, décadas depois de sua criação, o festival segue funcionando como bem cultural híbrido: parte cinema, parte moda, parte sociabilidade de elite, parte experiência aberta ao público na Rua Coberta, onde o tapete vermelho pode ser visto de graça.

Por que vale acompanhar

Se há um fio condutor nesta edição, é a sensação de que Gramado está tentando equilibrar duas coisas nem sempre fáceis de conciliar: a expansão do espetáculo (mais homenageados, retorno do filme de encerramento, agenda de festas cada vez mais robusta) e uma curadoria de ficção deliberadamente voltada a estreias e vozes novas. Para quem pensa cultura, comunicação de marca e construção de imagem pública, é um recorte e tanto: um festival que, ao completar 54 anos, continua sendo tanto vitrine de talento quanto laboratório vivo de como o Brasil narra a si mesmo, e de como quer ser visto fazendo isso.

VEJA MAIS