A Odisseia: quando o maior herói só quer voltar para casa

Christopher Nolan transforma um dos maiores épicos da literatura em uma história profundamente humana sobre trauma, memória e o desejo de voltar para casa. Com atuações marcantes, direção impecável e um espetáculo visual que nunca ofusca a emoção, A Odisseia reafirma por que o diretor continua entre os grandes nomes do cinema contemporâneo.
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Daniel Ribeiro

Existe algo que Christopher Nolan faz como poucos diretores conseguem: transformar histórias gigantescas em experiências íntimas. Em “A Odisseia”, ele parte de um dos maiores épicos da literatura para contar, acima de tudo, uma história sobre trauma, memória, sobrevivência e o desejo quase desesperador de voltar para casa. Mesmo lidando com deuses, ninfas, bruxas, sereias e criaturas mitológicas, o filme nunca cai na caricatura do fantástico. Pelo contrário. Nolan constrói um universo em que é fácil distinguir o que pertence ao mundo dos homens e o que pertence ao divino, sem precisar exagerar nos efeitos ou transformar seus personagens em estereótipos.


A escolha de Zendaya como Atena é um dos exemplos mais interessantes dessa proposta. Sua presença é contida, mas marcante. Ela interpreta a deusa com serenidade, inteligência e sensibilidade, funcionando como uma figura que acompanha Odisseu durante toda a sua jornada. Não é uma Atena grandiosa pelo espetáculo, mas pela calma que transmite. No filme, Zendaya interpreta uma Atena contida e elegante e, fora das telas, segue provando por que continua sendo um dos maiores nomes da moda contemporânea.  Nas premières, simplesmente não existe quem consiga competir com ela. O icônico method dressing já entrou para a história dos tapetes vermelhos e mostra como a atriz entende que divulgar um filme também é construir narrativa através da moda. Ela transforma cada aparição em um evento cultural. Talvez por isso ela seja uma das poucas artistas capazes de fazer com que a moda converse diretamente com a cultura pop, e vice-versa.


Matt Damon transforma Odisseu em um protagonista profundamente humano. É impossível não torcer por ele. A cada obstáculo, a cada decisão e a cada perda, o público compartilha sua angústia. O filme não trata apenas da viagem física de volta para Ítaca, mas também da tentativa de reconstruir um homem marcado pela Guerra da Tróia. Essa dimensão psicológica aparece de forma brilhante nas sequências com Calypso. Um romance ou uma prisão? Aquele espaço funcionou quase como uma sessão de terapia, é ali que Odisseu começa a enfrentar os próprios traumas, revisitar suas escolhas e entender o peso da guerra que carrega consigo.
Enquanto isso, Telêmaco vive uma jornada igualmente emocionante. Sua busca deixa de ser apenas encontrar o pai desaparecido e passa a ser compreender quem ele realmente foi. Em determinado momento, o filme sugere uma ideia muito bonita: talvez conhecer alguém pelas histórias daqueles que viveram ao seu lado seja tão importante quanto reencontrá-lo.


Anne Hathaway tem uma atuação impecável. É uma lembrança de como grandes atrizes transformam personagens por meio da interpretação, e não apenas da caracterização.  Suas expressões, seus silêncios e sua presença em cena mostram uma artista completamente entregue ao papel. É impossível compará-la com trabalhos anteriores porque ela desaparece dentro da personagem. Outro destaque é a forma como o roteiro trata Circe. Sua justificativa para transformar os marinheiros em animais não surge como um discurso vazio, mas como uma reflexão extremamente atual sobre violência masculina e vulnerabilidade feminina. Em poucos minutos, o filme consegue provocar discussões sem interromper sua narrativa.

L to R: Director Christopher Nolan with Cinematographer Hoyte van Hoytema, ASC on set of his film THE ODYSSEY, written, produced, and directed by Christopher Nolan.


Visualmente, Nolan impressiona. O IMAX amplia a sensação de escala sem perder a intimidade das cenas, fazendo com que a mitologia grega conviva naturalmente com os momentos mais humanos da narrativa. Gigantes, sereias e outras criaturas mitológicas surgem de forma convincente e orgânica, sem quebrar a imersão. Mesmo pertencendo ao universo da fantasia, elas encontram um lugar realista dentro da lógica do filme, reforçando a sensação de que tudo aquilo faz parte daquele mundo.

 

 

A sequência das sereias merece destaque justamente por fugir do óbvio. Nunca ouvimos o famoso canto, conhecemos sua força apenas através da narração de Odisseu. Essa escolha faz com que a imaginação do espectador complete aquilo que o filme decide não mostrar, tornando a experiência ainda mais poderosa do que qualquer efeito sonoro poderia proporcionar.
Falando em som, a sonoplastia merece tantos elogios quanto a fotografia. Ela conduz completamente a experiência emocional do espectador. Há momentos de tensão, angústia, expectativa e alívio potencializados pelo desenho de som, reforçando por que o trabalho técnico de Christopher Nolan continua entre os mais impressionantes do cinema contemporâneo.


O filme também encontra espaço para pequenos momentos de humor. São poucas cenas, mas aparecem exatamente quando precisam aparecer, oferecendo respiro sem diminuir o peso dramático da narrativa. A estrutura não linear pode exigir atenção do público, alternando entre episódios da Guerra de Tróia, relatos dos companheiros de Odisseu e sua permanência com Calypso, a primeira situationship da história. Ainda assim, tudo se encaixa organicamente e faz sentido dentro da proposta do diretor. Há filmes que chegam cercados de expectativa, seja pelo diretor, pelo elenco ou pela dimensão da história que carregam. A Odisseia faz parte desse grupo, e talvez seu maior mérito seja corresponder a tudo o que promete.


É satisfatório sair da sessão com a sensação de que toda a grandiosidade anunciada realmente está na tela. Christopher Nolan entrega um filme tecnicamente impecável, visualmente impressionante e emocionalmente envolvente, daqueles que parecem nascer para disputar as principais categorias do Oscar. Não apenas pela fotografia ou pela direção, mas pelo conjunto da obra: direção, roteiro, atuações, som e construção narrativa funcionam em perfeita sintonia.

 

L to R: Anne Hathaway is Penelope and Tom Holland is Telemachus in THE ODYSSEY, written, produced, and directed by Christopher Nolan.

Quando um projeto reúne nomes como Matt Damon, Anne Hathaway, Zendaya, Charlize Theron, Robert Pattinson e Lupita Nyong’o, existe sempre o risco de o elenco se tornar maior do que o próprio filme. Aqui acontece exatamente o contrário. O talento de cada um potencializa uma produção que já nasce ambiciosa, e o resultado faz jus ao peso de quem está diante e atrás das câmeras. Um elenco desse calibre merecia um grande filme, e foi exatamente isso que recebeu.

 

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