Depois de tantos anos, voltar para o universo de Magia Sedução era uma tarefa quase tão difícil quanto desfazer uma maldição. O primeiro filme ficou na memória por criar uma estética muito própria, uma relação particular com a magia e, principalmente, pela química entre Sandra Bullock e Nicole Kidman.
Visualmente, o filme continua lindo. As bruxas seguem longe daquela imagem caricata que a gente costuma associar ao imaginário da bruxaria: chapéu pontudo, roupa preta, vassoura e uma verruga estrategicamente posicionada no rosto.
Tem sobreposição de peças, texturas, referências hippies, elementos boho e uma estética que conversa bastante com os anos 90. Sally, inclusive, carrega uma identidade muito noventista, enquanto as novas personagens transitam por um visual mais hippie chic, estilo CHLOÉ Inverno 26. É aquele tipo de figurino que faz você pensar que talvez a bruxaria também tenha seu próprio moodboard no Pinterest, e funciona muito bem.
O problema começa quando percebemos que um filme com Sandra Bullock e Nicole Kidman precisa de antagonistas à altura delas.
A história começa de forma relativamente lenta, ganha um ritmo mais enrolado ao longo do caminho e, quando finalmente conseguimos entender para onde tudo está caminhando, boa parte da narrativa já foi consumida tentando explicar a própria trama. A maldição, o livro de magia, o primo distante, a relação entre Kylie e Antonia e a busca pelo fim do feitiço acabam disputando espaço dentro de uma história que poderia ter escolhido um conflito central e desenvolvido essa ideia com muito mais força. O próprio livro de magia segue uma lógica bastante conhecida dentro das histórias sobrenaturais: um objeto poderoso, uma magia capaz de corromper, personagens em busca de poder e as consequências que surgem a partir disso. É um elemento que funciona dentro desse universo, embora pudesse ter sido explorado de uma maneira mais original e integrada ao conflito principal.
E existe uma questão ainda mais curiosa.
O filme fala sobre como nenhuma magia é mais forte do que a irmandade, embora a própria narrativa acabe fazendo exatamente o contrário ao colocar Kylie muito mais no centro da história do que Antonia. Joey King interpreta Kylie Owens, enquanto Maisie Williams interpreta Antonia Owens, e aqui existe uma oportunidade enorme que o roteiro deixa passar: as duas poderiam funcionar como uma dupla realmente poderosa, com conflitos, diferenças, inseguranças, disputas e, principalmente, uma construção mais profunda dessa relação entre irmãs. Em vários momentos, Antonia simplesmente fica de fora do que está acontecendo e, quando a própria história estabelece que a irmandade é a maior força da magia, essa falta de equilíbrio entre as duas acaba se tornando um problema de construção narrativa.
Joey King também fica em uma posição complicada. Talvez o problema nem esteja na atuação dela. É difícil assumir o protagonismo quando você está dividindo a tela com Sandra Bullock e Nicole Kidman, duas atrizes que naturalmente dominam qualquer ambiente em que entram.
Em 2026, depois de tantos anos, talvez fosse muito mais interessante explorar o amor entre irmãs do que retornar à fórmula do grande amor romântico, da maldição e de uma narrativa que novamente coloca um homem no centro da história. Essa escolha também levanta uma questão comum em continuações: diante de um universo inteiro à disposição, por que voltar a uma história tão próxima da anterior? Magia Sedução 2 poderia ter funcionado quase como um filme independente dentro desse mesmo universo, mantendo Sally, Gillian, Kylie e Antonia, preservando a magia e a estética que já conhecemos, enquanto apresentava uma nova ameaça e novas possibilidades para essas personagens. Seria uma oportunidade de expandir esse mundo e mostrar até onde essa história poderia ir.
Em vez disso, a narrativa ainda fica muito presa à ideia da maldição do amor.
É uma continuação que poderia falar sobre irmandade, legado e poder feminino sem precisar transformar tudo novamente em uma história de amor romântico. O filme tem a estética. Tem o universo. Tem nostalgia. Tem Sandra Bullock. Tem Nicole Kidman. Tem uma nova geração de personagens. Tem magia, figurino.
Só faltou uma história que conseguisse estar à altura de tudo isso.
Visualmente, um feitiço.
Narrativamente, ainda precisa de um pouco mais de magia.
