De Humano para Humano

A publicidade está mudando. Em vez de focar apenas em vendas, as marcas investem em autenticidade, empatia e conexões reais para conquistar a confiança do público em um cenário cada vez mais digital.
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Daniel Ribeiro

Em um cenário cada vez mais dominado por algoritmos, automação e inteligência artificial, a publicidade vem passando por uma transformação significativa. No lugar de campanhas frias, padronizadas e totalmente focadas em vendas, cresce a busca por uma comunicação mais humana, próxima e empática. Nesse novo contexto, as marcas deixam de ocupar uma posição distante e institucional e passam a se aproximar mais do público, adotando uma postura mais conversacional e transparente. 

A chamada humanização da publicidade é uma abordagem do marketing que coloca o ser humano no centro das estratégias. Mais do que promover produtos ou serviços, essa perspectiva busca construir vínculos reais com o consumidor, baseados em confiança, escuta ativa, inclusão e valores compartilhados. O consumidor deixa de ser visto apenas como um alvo de campanhas e passa a ser compreendido como uma pessoa completa, com emoções, histórias e contextos sociais próprios que influenciam suas decisões. 

Essa mudança acompanha a evolução do próprio marketing ao longo dos anos. Conceitos como o Marketing 5.0 e o modelo H2H, Human to Human, desenvolvido por Philip Kotler, reforçam a ideia de que o futuro da comunicação não está apenas na tecnologia, mas na conexão entre pessoas. A tecnologia não substitui o humano, mas funciona como uma ferramenta que potencializa a personalização, a empatia e a construção de relacionamentos mais significativos entre marcas e consumidores. 

Nos últimos anos, esse movimento ganhou ainda mais força com o avanço da inteligência artificial e da automação na produção de conteúdo. Embora essas ferramentas tenham trazido eficiência e escala, também geraram uma percepção crescente de que muitas comunicações se tornaram padronizadas e pouco autênticas. Como consequência, consumidores passaram a valorizar ainda mais marcas que conseguem transmitir verdade e coerência. Segundo o Edelman Trust Barometer 2025, a confiança se consolidou como um dos principais ativos das empresas, especialmente em mercados emergentes como o Brasil, onde há uma cobrança maior por responsabilidade e alinhamento entre discurso e prática. 

Na prática, essa transformação já pode ser observada nas estratégias de comunicação das marcas. O uso de uma linguagem mais simples, acessível e próxima do cotidiano tornou-se cada vez mais comum. Além disso, cresce a valorização de conteúdos que mostram bastidores, processos e pessoas reais envolvidas na construção das marcas. Esse movimento ajuda a criar uma sensação de transparência e aproximação, fortalecendo a relação com o público. Ao mesmo tempo, o foco deixa de estar exclusivamente no produto e passa a incluir também as experiências, emoções e identidades que ele representa. 

No campo do marketing de influência, essa mudança também é bastante evidente. A estrategista de marketing de influência e creator economy Alana Becherer explica que a autenticidade se tornou um dos principais critérios na construção de campanhas mais eficazes. Segundo ela, muitas marcas têm investido na cocriação com influenciadores que já possuem uma identidade bem definida, justamente para garantir coerência entre a mensagem da campanha e o conteúdo produzido pelo creator

Alana destaca ainda que o planejamento e a curadoria são etapas fundamentais nesse processo, já que a escolha de influenciadores alinhados ao tom de voz da marca influencia diretamente nos resultados. Para ela, os creators mais autênticos conseguem agregar valor às campanhas ao produzir conteúdos mais naturais e, muitas vezes, alcançar públicos que vão além da base tradicional da marca. 

Na visão da especialista, a preparação das empresas para esse novo cenário passa por observação constante do mercado e análise de comportamento. Ela reforça a importância do social listening, tanto da própria marca quanto de concorrentes, como uma forma de entender tendências e ajustar estratégias de comunicação de maneira mais precisa e eficiente.

A humanização da publicidade traz uma série de benefícios diretos para as marcas. Entre os principais estão o aumento do engajamento, o fortalecimento da confiança do público, a fidelização de clientes e a diferenciação em um mercado cada vez mais competitivo. Quando bem aplicada, essa abordagem contribui para a construção de relações mais duradouras e consistentes entre marcas e consumidores.

Por outro lado, esse movimento também apresenta desafios importantes. Quando a tentativa de humanização parece forçada ou incoerente com a prática da empresa, o efeito pode ser negativo. Nesse caso, em vez de gerar conexão, a marca pode perder credibilidade e enfrentar desconfiança por parte do público. Por isso, a consistência entre discurso e ação se torna um elemento essencial nesse processo.

Diante desse cenário, a tendência aponta para um futuro em que a publicidade será cada vez mais relacional do que apenas comercial. Em um ambiente saturado de mensagens publicitárias, a autenticidade deixa de ser apenas um diferencial e passa a ser uma exigência do público. Assim, a comunicação das marcas tende a se aproximar cada vez mais de uma conversa real, onde o foco está menos em vender e mais em se conectar.

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