Do tapete vermelho para o mundo: como os brasileiros estão reposicionando o país no mercado da moda

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Natália Lima

Que o Brasil está se tornando o país do cinema, não é mais novidade para ninguém! As recentes participações de sucesso do nosso país em grandes festivais como Cannes, Globo de Ouro e Oscar colocam-nos em um lugar de valorização da cultura. Com isso, uma camada adicional também vem ganhando força nesse movimento: a moda. Mais especificamente, a forma como artistas brasileiros têm incorporado designers nacionais ou grandes marcas reconhecidas mundialmente nos respectivos tapetes vermelhos.

Cada aparição dos brasileiros é um evento à parte. Carregados de estratégias visuais, a participação no red carpet se consolida como uma das maiores vitrines globais para o posicionamento de marcas e países. O Brasil, aos poucos, começa a ocupar esse espaço não apenas como coadjuvante, mas como protagonista estético.

O glamour que expressa cultura

Ainda que o mercado da moda contemporânea valorize discurso, propósito e construção de marca, os momentos de grande visibilidade seguem sendo determinantes para legitimação no cenário internacional. Para a estilista Vitória Gonçalves, esses eventos cumprem um papel simbólico essencial: “Falamos muito que moda não é só glamour, especialmente para quem trabalha com moda, mas são esses momentos de muita repercussão que são chave para posicionar uma marca, um país ou uma cultura.”

Vitória cita como exemplo a aparição de Fernanda Torres no Globo de Ouro, usando um vestido de Olivier Theyskens, combinado com joias de Fernando Jorge. A escolha evidencia um movimento cada vez mais frequente: a mistura entre maisons internacionais consolidadas e nomes brasileiros. “Um momento como esse representa um reconhecimento de que nós também sabemos fazer, e muito bem, luxo”, completa.

O tapete vermelho deixou de ser apenas um espaço de exibição para se tornar uma marca forte de personalidade, seja de um artista, um elenco ou até mesmo um paí. Nele, cada escolha, do tecido aos acessórios, ajuda a contar uma história.

Nesse contexto, a presença de designers brasileiros não apenas amplia sua visibilidade, mas também contribui para a construção de uma imagem de Brasil mais sofisticada, diversa e criativa. “O Brasil está na moda”, afirma Vitória. “Nossa cultura, nosso borogodó e nosso jeito de viver são contagiantes. Quando levamos isso para o tapete vermelho, mostramos que essa essência também se traduz em moda e em negócio.”

Essa exportação simbólica da identidade brasileira é um dos principais ativos do país no mercado global. Diferente de polos tradicionais de luxo, o Brasil se destaca justamente pela pluralidade: cores, texturas, referências culturais e uma abordagem menos rígida da moda.

Apesar do reconhecimento internacional do estilo brasileiro, que podemos chamar também de “brasilcore” , ainda há um longo caminho para consolidar essa identidade de forma mais ampla e consistente. Marcas como Farm e PatBO vêm desempenhando um papel importante nesse processo, expandindo sua presença global e ajudando a construir repertório.

Ao mesmo tempo, produtos como as Havaianas se tornaram ícones reconhecidos mundialmente. Ainda assim, como pontua Vitória, essa não é uma narrativa única. “Temos uma estética reconhecível, especialmente pelo esforço dessas marcas. Mas quando pensamos na diversidade da moda nacional, ainda há muito a mostrar.”

A fala nos relembra que, apesar do mercado de luxo ser muito importante, não podemos esquecer da pluralidade brasileira que foge dos estereótipos, transitando entre maximalismo e alfaiataria, sem deixar de lado a manualidade e trabalhos artesanais.

Enaltecendo raízes

Nos últimos anos, algumas aparições se destacaram não apenas pelo impacto visual, mas pelo simbolismo. Além de Fernanda Torres no Globo de Ouro, a estilista cita Alice Carvalho, que apostou em um look de alfaiataria da marca Normando, reforçando a sofisticação e a versatilidade da moda nacional.

No Oscar, com o Brasil concorrendo há quatro categorias, Wagner Moura adentrou o salão com a mesma “mistureba”: utilizando uma alfaiataria impecável da grife italiana Zegna com joias de Andre Lasmar, artista recifense. O significado, neste caso, é ampliado pela regionalidade e autenticidade das jóias, remetendo ao cenário onde o filme indicado, O Agente Secreto, foi filmado.

Escolhas como essas estão, ao longo do tempo, consolidando nosso repertório, fortalecendo marcas e ajudando a posicionar o Brasil no imaginário global, considerando nossas especificidades e autenticidades. Estamos, aos poucos, deixando de ser tendência para se tornar referência.

 

 

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