O que sobra na gaveta: como o consumo acelerado de moda vira lixo em Porto Alegre

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Ana Luísa Ribeiro Martins

E como brechós e um olhar mais consciente podem mudar esse ciclo

 

Porto Alegre descarta tecido. Muito tecido. Blusas que viraram tendência em março e já foram esquecidas em julho. Jeans comprados por impulso que nunca saíram do cabide. Peças usadas uma única vez e abandonadas no fundo de um armário até seguirem para sacolas, calçadas e, na maioria dos casos, para o lixo comum.

O problema é maior do que parece. A indústria da moda produz cerca de 100 bilhões de peças de roupa por ano em todo o mundo e gera aproximadamente 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis anualmente. Menos de 1% das fibras utilizadas retorna ao início da cadeia produtiva para se transformar em novas roupas, segundo levantamento divulgado pela consultoria S2F Partners e pela Fundação Ellen MacArthur.

No Brasil, o descarte também preocupa. O país gera cerca de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, volume que representa aproximadamente 5% de todos os resíduos produzidos nacionalmente. Além das roupas descartadas pelos consumidores, entram nessa conta sobras da indústria, retalhos, calçados e peças de couro que acabam, em sua maioria, em aterros sanitários.

Em Porto Alegre, o cenário expõe outro desafio: a falta de uma estrutura específica para coleta e reciclagem de têxteis. O sistema municipal de coleta seletiva recebe materiais como papel, plástico, vidro e metal, mas tecidos não aparecem entre os resíduos contemplados pelo serviço. Na prática, isso significa que grande parte das roupas descartadas pelos moradores segue para a coleta comum e para a disposição final em aterros.

O problema, porém, não começa no descarte. Começa muito antes, na velocidade com que compramos, consumimos e substituímos roupas. Em um modelo de consumo acelerado, peças são produzidas para durar menos tempo, tendências se renovam em questão de semanas e o guarda-roupa passa a funcionar como um ciclo constante de compra e descarte, com impactos ambientais que permanecem por décadas.

O vício em novidade

Madi Muller, professora e especialista em comportamento do consumidor, explica que o fenômeno tem raízes profundas na cultura contemporânea. Para ela, o consumidor atual vive um paradoxo: quer pertencimento, mas está saturado. Quer autenticidade, mas segue tendências.

“O consumidor está viciado em novidades, mas se cansa delas muito rapidamente”, diz Madi. Ela aponta que autores como Zygmunt Bauman e Gilles Lipovetsky já descreveram esse mecanismo décadas atrás. Bauman, na sua teoria da modernidade líquida, afirma que o prazer do consumo está no ato da compra, não na posse, assim que o objeto é adquirido, ele perde parte de sua magia e já se busca o próximo estímulo. Lipovetsky complementa ao apontar que vivemos em uma cultura da novidade, onde o valor simbólico do produto se esgota rapidamente.

Dados recentes sustentam essa análise: segundo o Relatório Global de Tendências de Consumo 2025 da Nielsen, 52% dos consumidores brasileiros afirmam que o entusiasmo pela compra dura pouco, e que logo após adquirir um produto já estão em busca de outro.

No contexto da moda, esse ciclo é ainda mais acelerado pelas redes sociais. “Tendências nascem em comunidades, ganham nome, estética e trilha sonora, e em questão de dias já atravessam o feed para virar busca, conversa e compra”, analisa Madi. O TikTok, em especial, encurtou o ciclo de vida das tendências a um ponto sem precedentes. Microtendências como a febre dos Labubus, do morango do amor ou das capivaras surgem, viralizam e são descartadas em semanas, e cada uma deixa um rastro de peças compradas e rapidamente abandonadas.

“O pior impacto, a meu ver, é que elas intensificam um ciclo de consumo efêmero e descartável, estimulando a produção acelerada e o descarte precoce, ampliando resíduos e pressionando recursos naturais”, afirma a especialista.

Do guarda-roupa cheio ao brechó

Laura Schaffer, estrategista social e empreendedora de moda second hand, conhece esse ciclo por dentro. Ela mesma já foi parte dele.

“Meu interesse pelos brechós nasceu de um consumo desenfreado. Eu sempre gostei muito de moda, de tendências, de ter opções no guarda-roupa, e isso me levava a comprar sem muita intenção”, conta. Aos 19 anos, começou a se desfazer de peças que não faziam mais sentido (muitas delas novas) criando um perfil nas redes sociais para esses desapegos. O que começou como uma venda virou uma descoberta.

Com o tempo, à medida que foi entendendo melhor o funcionamento da indústria, especialmente o impacto do fast fashion e a força do mercado second hand, seu consumo se transformou. Hoje, cerca de 90% do seu guarda-roupa é composto por peças de brechó. O restante são itens com história ou compras pontuais feitas com outro olhar.

“Entender o funcionamento da indústria e refletir sobre propósito transformou completamente minha relação com as roupas”, diz Laura. Para ela, o brechó conquistou por razões que vão além do preço: “O que me encanta é a singularidade e a possibilidade de construir um estilo com identidade própria.”

Entre as categorias favoritas estão as peças de alfaiataria, camisas e blazers, que unem qualidade e acabamento superior a um custo mais acessível do que no mercado tradicional. “O preço, sinceramente, é o que menos me atrai”, afirma.

 

O que pode mudar

O brechó é uma das respostas mais visíveis ao problema do lixo têxtil, mas não é a única. Madi Muller aponta que marcas com posicionamento mais responsável estão reagindo ao cenário com foco em durabilidade, circularidade e experiência, em vez de depender apenas da velocidade dos lançamentos.

Exemplos como a Patagonia, que incentiva o reparo e a reutilização das roupas, e a Stella McCartney, pioneira em moda sustentável, mostram que é possível operar de outra forma. No Brasil, iniciativas como o Fashion Revolution e o movimento slow fashion também ganham força, pregando uma moda mais justa, limpa e transparente.

Para o consumidor, as mudanças podem começar com pequenos deslocamentos de perspectiva: escolher qualidade em vez de quantidade, valorizar marcas com propósito, recorrer a brechós e plataformas de revenda para prolongar o ciclo de vida das peças.

“Educação, informação, conscientização”, resume Madi. “Os consumidores podem combater os efeitos negativos adotando práticas de consumo consciente.”

Laura Schaffer é prova de que essa mudança é possível, e que ela começa, muitas vezes, por um guarda-roupa que já está cheio demais.

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