O luto em suas mais diversas formas, o luto vivido subjetivamente por cada um daqueles que perderam alguém. “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” (2025), dirigido por Chloé Zhao traz à tona o tema de forma sensível, poética e emocionante. Com personagens principais interpretados por Jessie Buckley e Paul Mescal, o filme é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Maggie O’Farrell. O filme concorre ao Oscar 2026 em 8 categorias, incluindo Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Atriz e Melhor Ator.
Logo de cara o longa já dá o tom: intensidade. Sem grandes encontros ou amor à primeira vista, a paixão vivida por Agnes (Jessie Buckley) e William Shakespeare, (Paul Mescal) surge de forma acelerada. A floresta, que em seguida seria revelada como habitat de Agnes e fonte de sua força e espiritualidade, foi de treinamento de aves de rapina à beijos intensos e apaixonados, seguidos por conversas e clara demonstração de conexão entre o casal.
William, que dava aulas de latim para crianças da região, arrematou o coração da moça recitando o mito de Orfeu e Eurídice, já dando spoiler que as histórias de amor, mesmo que bonitas, podem ser trágicas. Porém, logo a paixão inicial dá lugar à frieza, trazida principalmente nas cores do cenários e das roupas. Agnes sempre aparece com vestidos com movimento e cores vivas, em tons de vermelho, com uma leveza em seu sorriso e fala. Em contraponto, William e sua família utilizam roupas escuras e pesadas, vivendo em uma casa também escura, que transmite uma sensação de clausura e desconforto.
A partir da cena incômoda, repleta de brigas, em que William se reúne com sua família, a tragédia volta à cena. A família tradicional se opõe ao casal, taxando Agnes como bruxa e questionando os sentimentos de William que, apesar da péssima relação familiar, segue firme com sua escolha, assumindo a gravidez e o casamento com Agnes.
Seu primeiro filho nasce em meio à floresta, em uma cena impecável que demonstra a força feminina e a ligação da mulher com a natureza. Apesar disso, as cenas seguem com seu tom melancólico, ampliado pela iluminação de velas e pela bagunça dos escritos de William. Neste momento, o poeta já demonstra sua inquietação e necessidade de solidão. No nascimento do segundo filho do casal, Hamnet, a ausência do pai já foi normalizada. A descoberta de que eram gêmeos, em um parto tenso, revela ainda mais a força de Agnes, que luta, pela primeira vez, pela vida de sua filha Eliza.
A partir disso, a próxima tragédia anunciada é a chegada da peste negra, pressentida por Agnes através do clima e revelada em uma das viagens de Shakespeare à Londres. Logo o mal chega ao ambiente bucólico em que a família permaneceu, obrigando Agnes a lutar pela vida de Eliza pela segunda vez.
Em uma das cenas mais interessantes e desesperadoras do filme, a atuação da de Jessie Buckley se mostrou ainda mais potente: em uma tentativa de salvar sua filha que ardia em febre, Agnes não precisou de gritos para expressar seu horror e desespero diante da morte iminente. A câmera seguiu a voz suave da mãe, que com voz potente impunha suas necessidades naquele momento. Durante a noite de agonia Hamnet, que sempre foi apegado à sua gêmea, também revela seus instintos herdados da mãe e suplica a troca de lugar com sua irmã. Atendido de forma agoniante, a trama revela sua morte no mesmo cenário de seu nascimento, a floresta.
A partir disso, William retorna mas não de forma integral. Tomado pela culpa de sua ausência, o personagem se torna cada vez mais distante, imerso em sua própria solidão que depois será transformada em arte. Agnes também perde o brilho e o romance, já desgastado, dá lugar às inquietações do ser de cada um. Aqui fica evidente o texto teatral, com citações diretas ao clássico “Hamlet” como a famosa frase “ser ou não ser, eis a questão”, que aparece de forma clichê em um devaneio de William.
Ainda tomada pela dor incalculável de uma mãe que perdeu um filho, Agnes se recusa a acreditar que seu marido transformou o luto em uma peça de teatro e irá expô-la na frente de todos. Ao longo da peça, ela vai entendendo um por um dos personagens de seu luto, como se a encenação da famosa história de Hamlet revelasse sua história. Ao final, a morte por envenenamento do personagem principal sensibiliza o público e Agnes expressa, finalmente, um sorriso de paz de uma mãe que compreendeu a escolha de seu filho.
Hamnet é, portanto, sobre luto sim, mas também sobre um entendimento do que é a morte e de como ela pode afetar a vida de todos ao seu redor. Sutileza não descreve este roteiro, que escancara as emoções presentes, mas sem perder a sensibilidade e a emoção em cada cena.
