Quando o cabelo muda, quem somos?

A queda de cabelo no tratamento oncológico vai além da estética, impactando identidade e autoestima. Aqui, reunimos visão médica e relatos reais sobre os desafios e a ressignificação ao longo da jornada.
Foto de Lohany Sorgen

Lohany Sorgen

Ao longo da história, o cabelo ocupou um papel central na construção da identidade e do status social, funcionando como um marcador visível de poder, pertencimento e individualidade, especialmente para as mulheres. Na Europa medieval, por exemplo, os cabelos longos eram associados à feminilidade e à virtude. Essa construção simbólica atravessa séculos e ajuda a explicar por que, ainda hoje, o cabelo carrega um peso que vai além da estética e faz parte da identidade de tantas mulheres. Nesse contexto, segundo a American Cancer Society, a queda capilar é um dos efeitos colaterais mais temidos por pacientes em tratamento oncológico e é o momento em que a doença, em sua maior parte silenciosa, passa a ocupar também o espelho.

Mais do que um efeito colateral da quimioterapia, a alopecia representa uma ruptura simbólica com a própria identidade: estudos do PubMed Central indicam que cerca de 89% das mulheres com câncer relatam preocupação com a perda capilar durante o tratamento, evidenciando que o impacto ultrapassa o campo estético e atinge diretamente a autoestima, a percepção de feminilidade e o modo como essas mulheres se reconhecem socialmente. No campo da psico-oncologia, essa mudança é compreendida como um dos gatilhos emocionais mais intensos da jornada da doença, por tornar visível uma condição que antes podia ser vivida de forma privada.

Segundo a oncologista clínica Letícia Rossato, muitas pessoas não entendem o porquê a quimioterapia causa a queda, e explica que isso acontece pois ela atinge, além das células que precisam ser atingidas, algumas benignas, incluindo as do folículo capilar. Ainda segundo a médica, dependendo do tipo de quimioterapia ao qual a paciente está sendo exposta, a alopecia pode mudar de intensidade e, com algumas atualizações na medicina, existem alternativas para evitar a queda. “Hoje em dia nós temos a touca, chamada de crioterapia. Ela faz o resfriamento do couro cabeludo e, quando a gente resfria a pele dele, a quimioterapia tem menos efeito na região. Não impede completamente, mas existem muitos estudos que comprovam sua eficácia”, comenta ela. 

Ainda segundo Letícia, nem todo câncer requer quimioterapia, e os tratamentos são personalizados com base no estadiamento e nas características da paciente, mas a perda de cabelo impacta muito as mulheres, especialmente porque o cabelo faz parte da identidade feminina. “A perda do cabelo é um dos aspectos mais dolorosos por causa do estigma social que associa o tratamento oncológico à doença, fazendo com que as pacientes sejam reconhecidas como “pessoas doentes”, o que invade sua individualidade e pode ser comparado à abordagem indevida a mulheres gestantes. A perda de cabelo também contribui para o tabu de que as pessoas associam o tratamento oncológico à morte, embora a maioria dos casos de câncer de mama, por exemplo, sejam curáveis, e pode levar a uma vulnerabilidade no sentido da identidade corporal e pessoal, pois a paciente não se reconhece mais”, complementa.

A CORAGEM DE ABRAÇAR CADA VERSÃO

A influenciadora digital Duda Riedel compartilhou com a Style&Trends um pouco da sua jornada com o câncer e como ele teve impacto muito além da doença. Sua carreira começou em 2016, com a publicação de esquetes no YouTube, o que resultou em um crescimento gradual de seguidores. Em 2019, quando recebeu o diagnóstico aos 24 anos, ela já possuía uma comunidade sólida e contou que, ao receber a notícia, uma de suas primeiras preocupações foi o fato de perder o cabelo e como isso afetaria seu trabalho na produção de conteúdo. Inicialmente, publicou um texto informando seus seguidores sobre o tratamento oncológico, e eles acompanharam todo o processo, incluindo a queda de cabelo, e muitos permanecem presentes em sua vida até hoje.

Assim como Letícia trouxe em sua fala, Duda explicou que sabia que nem todos os casos levam à perda de cabelo e acreditava que esse seria o seu. Além disso, ressaltou que a queda de cabelo não foi uniforme, concentrando-se principalmente no topo da cabeça. Por isso, optou por raspar, devido ao incômodo e à necessidade de focar em outras questões de saúde. Ainda assim, destacou que, dependendo da paciente, essa decisão pode variar, não sendo necessário raspar em todos os casos. 

Reprodução: Arquivo Pessoal

Para ela, a queda de cabelo não teve impacto direto em sua autoestima. “Em vez de me sentir incomodada, eu me achei bonita e reluzente, senti uma nova versão de mim mesma. A calvície em si nunca foi um problema e nunca me fez sentir feia”, contou. Dessa maneira, o maior desafio para Duda não foi a queda de cabelo, mas sim o processo pós-tratamento e o crescimento subsequente dele, um processo que ela considerava que acabaria logo após a alta. Ela inicialmente esperava que o cabelo cresceria rapidamente, mas o crescimento demorou seis meses após o fim do tratamento. “O meu cabelo passou por fases, como a fase “kiwi” (não uniforme) e a fase “capacete”, crescendo com uma estrutura diferente (mais áspera, encaracolada e com mais fios brancos) devido à química da quimioterapia.”

“Em vez de me sentir incomodada, eu me achei bonita e reluzente, senti uma nova versão de mim mesma.”

Para falar sobre beleza no contexto da doença sem romantização, Duda enfatiza que cada pessoa é única, e o que funciona para uma pode não funcionar para outra. Ela aconselha que é crucial entender com quem se está falando, para além da doença, e abraçar o indivíduo, ajudando-o na forma como lida com o cabelo, seja com lenços, perucas, ou cuidando do cabelo ralo que resta. “A frase mais dolorosa para uma pessoa em tratamento oncológico é “cabelo cresce”, pois deslegitima a importância do cabelo como armadura e moldura para a mulher. Embora saibam que o cabelo cresce, o processo é doloroso, e todas as pessoas têm o direito de se revoltarem pela perda capilar”, complementa. No entanto, a recompensa, segundo ela, é a gratificação de ter sido corajosa o suficiente para enfrentar cada fase, reconstruindo-se junto com o crescimento do cabelo.

Reprodução: Arquivo Pessoal

CUIDADOS E VALIDAÇÃO

Por fim, segundo a Dra. Letícia Rosatto, é crucial que a perda de cabelo não seja tratada como futilidade, pois o impacto na identidade corporal e emocional da mulher é significativo, sendo que a preocupação com a imagem deve ser uma prioridade nas decisões terapêuticas. No entanto, deve-se estabelecer que a preocupação com o cabelo não pode impedir um tratamento necessário para a saúde e vida da paciente, mas é algo que exige todo o suporte social, familiar, médico e psicológico. Os cuidados para tentar reduzir a queda incluem evitar qualquer tipo de química no cabelo, como pintura, descoloração e alisamentos, pentear os cabelos gentilmente de baixo para cima, lavar com menos frequência, usar produtos especiais menos agressivos e usar água fria. A decisão de cortar o cabelo é pessoal e não afeta a queda, mas pode ser uma forma de a paciente lidar com o atrito.

Dessa maneira, o cabelo deixa de ser apenas um elemento estético e se revela como um território profundo de identidade, autonomia e expressão. Quando ele muda, seja pela doença, pelo tratamento ou por escolha, o que está em jogo não é apenas a aparência, mas a forma como cada mulher se enxerga, se reconhece e é reconhecida pelo mundo. Ao olhar para histórias como a de Duda, fica evidente que não existe uma única forma de viver esse processo: há quem sofra, há quem ressignifique e há quem transite entre esses sentimentos. Mais do que buscar respostas definitivas, talvez a pergunta “quando o cabelo muda, quem somos?” convide justamente a ampliar o olhar para a pluralidade dessas vivências: com mais escuta, acolhimento e respeito às diferentes formas de reconstrução que surgem ao longo do caminho.

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